quinta-feira, abril 29, 2010

Vou chegar onde só chega quem não tem medo de naufragar

Não vou procurar quem espero
Se o que eu quero é navegar
Pelo tamanho das ondas…
Conto não voltar,
Parto rumo à primavera
Que em meu fundo se escondeu…
Esqueço tudo do que eu sou capaz
Hoje o mar sou eu,
Esperam-me ondas que persistem
Nunca param de bater,
Esperam-me homens que desistem
Antes de morrer,
Por querer mais do que a vida
Sou a sombra do que eu sou…
E ao fim não toquei em nada
Do que em mim tocou…

Eu vi
Mas não agarrei

Parto rumo à maravilha,
Rumo à dor que houver para vir,
Se eu encontrar uma ilha
Paro para sentir
E dar sentido à viagem
Para sentir que eu sou capaz…
Se o meu peito diz coragem
Volto a partir em paz

Eu vi
Mas não agarrei

sexta-feira, abril 23, 2010

Ser 'gaja'

Ser ‘gaja’ às vezes irrita-me. Por muito que tente fugir das pressões sociais e dos dilemas femininos comuns - diria até ‘fúteis’ – está-nos nos genes e não conseguimos escapar-lhes. Existem sempre aqueles minutos, às vezes semanais, outras vezes mais frequentes, dependendo da altura do ano ou da nossa corrente de hormonas, em que tudo de problemático nos enche a cabeça.

Basta folhear umas revistas ‘cor-de-rosa’, ver aqueles programas na televisão com apresentadoras e/ou assistentes escolhidas a dedo - altas, magras, sempre bem vestidas, bem maquilhadas, bem penteadas, vistosas, atraentes - ou, pior ainda, as revistas masculinas com produções XPTO carregadas de photoshop. Aquelas a quem chamam ‘VIPS’ conseguem, inclusivamente, acabar de ser mães e - quando geralmente o normal é sair da maternidade com mais uns 15 quilos em cima, cabelo desgrenhado, cara deslavada, um ar exausto (mas feliz, é certo) a precisar de manutenção -, vemo-las a ser fotografadas como se acabassem de ter saído de um SPA; com um outfit de acordo com as últimas tendências, um cabelo brilhante e bem tratado, as unhas arranjadas e uma maquilhagem luminosa mas natural, não vá parecer exagero ou até um pouco 'pimbalhesco'. Inacreditável.

Há alturas em que simplesmente não consigo estar bem com o meu físico. Na verdade, embora faça sempre por parecer uma pessoa com uma auto-estima elevada, e talvez daí o facto de a maioria das pessoas me achar, à primeira vista, convencida ou com um ar altivo, nunca me considerei uma ‘gaja boa’. Bendita roupa que disfarça tudo aquilo que detestamos em nós! Hoje em dia ninguém se pode queixar: desde soutiens ‘push up’, mais ou menos almofadados que fazem as mamas perfeitas, até às calças que arrebitam o rabo, ou que até o fazem parecer bem-feitinho, tudo passa por uma questão de sabedoria quando toca a escolher padrões, tecidos, ou até mesmo os cortes das peças de roupa, o tamanho e espessura do tacão do sapato e, no final, a conjugação de tudo! (nota-se logo que trabalho com moda, há uns tempos atrás certamente não escreveria nada disto).

O caldo entorna mesmo é quando chega a altura do calor e nos apercebemos que o verão está prestes a arrebentar com todo o seu esplendor. Calções, mini-saias, decotes, tops justos e curtos, biquínis, praia, muita gente à nossa volta a observar… Nunca ultrapassei o terror dos primeiros dias de praia! Primeiro por ser branca como a cal e achar isso horroroso e, segundo, por odiar 98% do meu corpo, se considerarmos que só gosto do meu nariz e do meu peito. Há uns anos atrás ainda tinha um certo amor pela minha barriga, mas agora nem isso. Só de imaginar toda aquela luz que o sol irradia sobre aqueles defeitos mais tenebrosos, mais vale nem tecer comentários. É em alturas como esta, por exemplo, que adorava ser milionária; clínicas e tratamentos miraculosos fazia-os a todos. Ou quase. Fútil, eu sei, mas fazer o quê? Sou 'gaja' e estas mesquinhices irritam-me.

Não como muito. Também não pratico desporto, é um facto, mas infelizmente o tempo cada vez é mais escasso e os ginásios são exageradamente caros. Como é que conseguem vir com aquele blá blá blá de cuidar da saúde e da manutenção da boa forma física se depois não fomentam essa necessidade e impossibilitam o seu acesso a pessoas com a carteira menos recheada? Não entendo. Nunca entendi. Isso e aquelas dondocas que só lá andam para desfilarem os micro modelitos, para se atirarem descaradamente aos professores e para afiarem a língua com comentários acerca das outras que lá andam…mas para exercitar o corpo, como manda o local em questão. Mas isto seria pano para mangas que agora não me apetece fabricar, porque nem essa importância merece.

Ao bocado decidi pesar-me. Nunca o faço. Talvez só duas vezes por ano, e porque faz parte das consultas médicas de rotina. Desta vez sinto-me tão ‘inchada’ que não resisti a ver se é panca ou se realmente engordei uns 10 quilos, porque é isso que muitas vezes me parece. Porém, o número que piscou (nas 3 vezes que subi à balança para confirmar) continua a não me convencer. Ronda o mesmo de sempre. Mais uns gramas, mas é noite e acabei hà pouco tempo de jantar. Então - pergunto-me eu - porquê a roupa estar mais apertada e porquê eu sentir-me tudo menos confortável com o meu corpo? Isto dá mesmo cabo de mim, irrita-me ser ’gaja’, aquela ‘gaja’ padrão da sociedade.

Para além disto - desta preocupação com o ego, com o bem-estar físico, com a aproximação do tempo de praia - às vezes também acontece comparar-me com qualquer mulher: não só com as que aparecem nas revistas, com as apresentadoras de TV, com as actrizes de cinema, mas também com as que me rodeiam num café, num bar, num restaurante. Pior do que isso, com as 'ex'. Com as aventuras. Eram melhor? Pior? Mais gordas? Mais magras? Mais ‘boas’? Tinham pneus na barriga? Celulite no rabo? Estrias nas coxas? Eram mais sensuais, sexy, atraentes, bombásticas? Bem, quando chegamos a este ponto das duas uma: ou fazemos um retiro espiritual no Tibete ou metemo-nos num avião rumo ao paraíso, para arejar as ideias, acalmar os neurónios e concentrarmo-nos no mar quente azul-turquesa, na espreguiçadeira e na caipiroska pousada numa mesinha mesmo ao nosso lado, de preferência com uma daquelas palhinhas bem grandes para nem sequer termos de esticar o braço para pegar no copo.

Qualquer uma destas opções parece-me fantástica tendo em conta que, ultimamente, ando cansada e sem tempo para nada. Sem tempo especialmente para mim. O trabalho cada vez mais me consome, o que me pagam é desproporcional ao desgaste físico acabando, por sua vez, por contribuir para um desgaste psicológico. Em casa há sempre aquelas tarefas pendentes e depois, claro está, o corpo a acusar o cansaço e a idade também a não perdoar. Desde que os dias se tornaram mais longos que ainda não consegui ter a oportunidade de sair do escritório à hora suposta e poder usufruir de um belo pôr de sol, numa esplanada à beira-mar. Triste, mas é a dura realidade de quem cresceu sem querer nem pedir a ninguém para crescer.

Esta falta de tempo fomenta também em mim as saudades de escrever. Tudo o que tenho conseguido é simplesmente mental. Quantas vezes não surgem na minha cabeça, de um momento para o outro, aquelas frases, temas ou constatações em que dava tudo para poder parar o tempo, pegar num papel e numa caneta – ou num computador – e soltar todas as palavras que emergem abruptamente? Mas nem sequer isto tenho conseguido, quanto mais não seja porque falha-me a energia para o conseguir fazer como desejo. Nestes casos, em que sei que não vou conseguir transmitir o que realmente quero, prefiro continuar quieta e guardar a ânsia e a necessidade de o fazer para outra altura mais favorável. Como por exemplo esta. Ou não.

Ser 'gaja' ás vezes irrita-me mesmo!

segunda-feira, abril 12, 2010

Agora vivo num mundo à parte do teu

Pensas que eu vou jogar este jogo contigo
Tudo o que eu tenho é meu, só meu, queres o meu “guito”
Trata de pegar nas tuas cenas e “baza”
Eu cá não fico contigo na mesma casa

Falas disso, esquece isso
Eu não percebo porque é que ainda estás cá

Que queres de mim
Que queres que eu faça
Dá meia volta e “baza”
Não me leves a mal
Gajas como tu não quero, não tolero
Saio do sério
Noite deslumbrante
Corpo escaldante
Lembro-me de tudo o que passamos
Foi bom naquele instante
Agora considero-te uma gaja irritante

...

Pensas que vais ficar por cá muito mais tempo
Demasiado tarde por isso aproveita este momento
Agora vivo num mundo à parte do teu
Mas continuo sem saber o que nos aconteceu

...

Expensive Soul - Falas Disso

sexta-feira, abril 09, 2010

Eu não minto. Digo o que sinto.

Quando alguma coisa corre mal - ou menos bem - seja em relações ou no trabalho, a maior parte das pessoas tende a crer que falhou em alguma coisa, o que nem sempre é certo.

Se acreditaste, se te empenhaste, se te dedicaste, se acarinhaste, se sentiste, se te sacrificaste, se deste tudo aquilo que podias dar e, mesmo assim, a facada veio pela calada, então a falha não foi certamente tua.

Não sei o que é preferível, se perder porque falhamos ou se perder porque a outra pessoa quis falhar. Afinal de contas, a dor é a mesma.

...as amizades também morrem.

quinta-feira, março 18, 2010

quarta-feira, março 10, 2010

A teoria da conspiração

Confirma-se. Hoje lembrei-me de um pormenor talvez 'engraçado' para ser dissertado: o que é que aconteceu à tão falada, divulgada e controversa gripe A?

Pois bem, tal como eu previ, o seu fim foi igual ao seu início: rápido e repentino. Explicações? Aparentemente nenhuma. Foi como a vaga do vírus das 'vacas loucas' ou de uns outros tantos que sem mais nem porquê assolam o mundo, provocam o pânico global, a confusão geral, o medo social e a fobia pela prevenção.

Golpes baixos de quem governa o mundo para enriquecer à custa do povinho? Esquemas dos cabecilhas da área da saúde para gerar receitas? Experiências de quem tem o poder para fazer de nós cobaias ignorantes? Estará o mundo nas mãos de pessoas maléficas sem claramente se aperceber?

Isto quase me parece um filme ao estilo de "Truman Show", que relata a história de um homem cuja vida serve de base, 24 horas por dia, a um espectáculo colussal de televisão. A cidade onde vive é um estúdio montado propositadamente para o efeito, os moradores, trabalhadores e até a própria mulher são actores e, gradualmente e inevitavelmente, ele acaba por enlouquecer quando tudo começa a ganhar o seu verdadeiro sentido.

Será isto que querem de nós, seres humanos? Serão os por 'nós' considerados loucos, os mentalmente saudáveis que, por verem uma verdade oculta, têm que ser aprisionados para não falarem demais?

Um exagero pensar nesta possibilidade, talvez. O facto incontornável é que este vírus mortal do 'H1n1' se evaporou à mesma velocidade com que se propagou. E, parafraseando as palavras que uma vez ouvi, colocando nelas uma pequena alteração: podem fazer de mim vaca, mas louca é que não!

quarta-feira, março 03, 2010

'O futuro não depende totalmente da nossa vontade, nem é totalmente alheio a ela; não o esqueças, para que não tomes como uma fatalidade o que ainda não aconteceu, nem como impossível de concretizar aquilo que mais desejas.'

Epicuro, 341-270 a.C., filósofo grego, Carta a Meneceu

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Estou para os 30 como Portugal está para a salada de fruta

Dizem que a chegada dos 30 pouco ou nada nos traz de diferente, mas a minha perspectiva não condiz com esta aparente indiferença. Não estou com um 'pé para a cova', nem tão pouco me sinto velha (pelo menos de espírito), só que as evidências não me deixam ficar impassível aos anos que passam à velocidade da luz.

Há 10 anos atrás estava longe de me preocupar com 'gordurinhas' a mais, celulite instalada, estrias, má circulação do sangue, colestrol alto, falta de vitaminas, descamação do couro cabeludo e outras coisas afins que o corpo vai acusando pelo desgaste e maus hábitos do dia-a-dia. Não tinha que me preocupar tanto com a aparência - exactamente por não ter que ir disfarçando esta passagem do tempo - e não tinha que fazer contas aos gastos para a manutenção de uma pele, cabelo e/ou unhas bonitas. Sentia-me bem mais livre destas 'futilidades' necessárias para uma auto-estima minimamente equilibrada (e não me venham com filosofias de que ter auto-confiança não é importante para uma psique saudável).

Aos 20 anos de idade também me sentia longe de ter o peso das responsabilidades que tenho hoje; bastava-me estudar para ter boas notas e cumprir com o prometido ao meu pai, pois em troca tinha garantida a minha mesada e a minha liberdade social, vulgo sair e entrar em casa às horas que bem me apetecia. Agora se dormir pouco ou nada não posso ouvir o despertador, desligá-lo e virar-me para o lado a pensar 'que se lixe o trabalho, alguém há de o fazer por mim'. Tenho que pensar em contas porque - embora ainda não tenha casa própria e os custos a ela inerentes - tenho carro, um crédito pessoal em curso, uma cadela para cuidar e outras 'pequenas' coisas que os pais já não pagam, porque já muito eles fizeram. Fora ainda os extras que qualquer ser humano necessita para desanuviar desta vida rotineira de 'adulto', como os jantares de amigos, as ansiadas férias e o cinema a um domingo à noite. Se não for eu, ninguém se vai preocupar com isso por mim.

A juntar a este natural processo de crescimento, o estado lastimável da economia mundial que, como não podia deixar de ser, é fruto dos comportamentos irresponsáveis, gananciosos e materialistas do ser humano que 'domina' o mundo apelidado de 'moderno'. A crise está instalada de tal maneira que não há esforço que resista ao cinto que já nem aperta...sufoca, quase que mata! Pedindo desde já desculpa pelo termo menos próprio, neste país de 'merda' deviam preocupar-se mais, por exemplo, com quem o governa do que com palermices, como o caso das escutas do Pinto da Costa. Podem achar-me suspeita por ser portista mas, que me desculpem novamente os que isso consideram relevante, eu quero lá saber de 'sumaríssimos' pedidos por favor, da criação de falsas polémicas, de encomendas de 'saladas de fruta' por parte de equipas de arbitragem, de café com leite ou mais escuro...estão a brincar comigo?? Qual é a empresa, negócio ou afim neste país de 3º mundo que não vive de corrupção, fachadas e factos camuflados? Creio que existem casos bem mais graves com que se perder tempo para endireitar 'paus que nascem tortos' - ou que se tornam tortos - por viverem num país feito à base de leis e demais coisas tortas!

Em jeito de curiosidade, lembrei-me agora que, na semana passada, a minha mãe trouxe um tupperware de biscoitos e eu, ao olhar para eles, não pensei duas vezes antes de soltar a frase 'olha...os biscoitos da bibó!". Quando o disse senti-me um pouco constragida, mas foi mais natural do que a 'minha própria sede'. Calei-me e, por momentos, a minha memória viajou para os meus 10/12 anos quando, a seguir à escola, ia a casa dela. Existiam sempre 2 rituais: o leite acompanhado por aqueles biscoitos característicos, em forma de S, e os chocolates 'escondidos' atrás de uma pequena porta de um armário da sala, que a minha bisavó comprava propositadamente para cada uma das bisnetas. É incrível o que determinados pormenores nos fazem recordar. Acho que, durante a minha curta viagem ao passado, até consegui sentir o cheiro da casa dela e até mesmo, o dela própria. Foi uma questão de segundos, mas consegui imaginar cada detalhe como se ainda ontem tivesse lá ido, a seguir às aulas. Já passaram mais de 10 anos e ela já faleceu há 5.

Nessa altura eu ainda era uma criança bem inocente. Ainda o sou, é certo, mas (in) felizmente já não em tanta coisa. Na adolescência conseguia imaginar-me na perfeição com a idade de hoje; casada, com filhos, uma casa, uma vida organizada. Era tudo fácil. Hoje, quase nos 30, tenho muito, mas não tudo. E desgasta-me pensar que estudei 20 anos para depois a compensação não ser a esperada ou, até mesmo, a prometida. Desgasta-me trabalhar 8 ou mais horas por dia durante 5 dias por semana e ganhar uma miséria. Desgasta-me o empenho sem recompensa. A dedicação com base em falsas expectativas. Desgasta-me a reprimenda de chegar 15 minutos atrasada de manhã e ter que responder 'o meu horário de saída também é às 18h30' ou pensar nas tantas horas extra que ninguém me paga ou enaltece. Desgastam-me os sonhos mutilados, o futuro incerto, a hipocrisia dos abastados e a luta com resultados, para já, inglórios para as minhas ambições.

Perante tudo isto, só me apetece mesmo continuar a dizer 'quero lá saber da fruta e do café com leite'! Venha mas é a garantia da água própria para beber e do pão fresco para comer...

Porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura

Como nuvens pelo céu
Passam os sonhos por mim.
Nenhum dos sonhos é meu
Embora eu os sonhe assim.
São coisas no alto que são
Enquanto a vista as conhece,
Depois são sombras que vão
Pelo campo que arrefece.

Símbolos? Sonhos? Quem torna
Meu coração ao que foi?
Que dor de mim me transtorna?
Que coisa inútil me dói?

Fernando Pessoa

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Aos Amigos

"Não posso dar-te soluções para todos os problemas da vida,
Nem tenho resposta para as tuas dúvidas e temores,
Mas posso escutar-te e compartilhar contigo.

Não posso mudar o teu passado nem o teu futuro.
Contudo quando necessitares, estarei junto a ti.

Não posso evitar que tropeces,
Somente posso oferecer-te a minha mão para que te agarres e não caias.

As tuas alegrias, os teus triunfos e os teus êxitos não são os meus,
Contudo desfruto sinceramente quando te vejo feliz.

Não julgo as decisões que tomas na vida,
Limito-me a apoiar-te, a estimular-te,
E a ajudar-te sem que mo peças.

Não posso traçar-te limites dentro dos quais deves actuar,
Contudo ofereço-te o espaço necessário para crescer.

Não posso evitar o teu sofrimento.
Quando alguma pena te parte o coração
Mas posso chorar contigo
E recolher os pedaços para juntá-los de novo.

Não posso dizer-te quem és,
Nem quem deverias ser,
Somente posso amar-te como és e ser teu amigo.

Nestes dias pensei nos meus amigos e amigas.
Não estavas em cima, nem em baixo, nem no meio.
Não encabeçavas, nem concluías a lista.
Não eras o número um, nem o número final.
Dormir feliz, emanar vibrações.
Saber que estamos aqui de passagem,
Melhorar as relações.
Aproveitar as oportunidades,
Escutar o coração,
Acreditar na vida.

E tão pouco tenho a pretensão de ser o primeiro,
O segundo ou o terceiro da tua lista...
Basta que me queiras como amigo."

Por Jorge Luis Borges

quarta-feira, janeiro 20, 2010

A vida como um chocolate quente

"Um grupo de jovens licenciados, todos bem sucedidos nas carreiras, decidiu fazer uma visita a um velho Professor, agora reformado.

Durante a visita a conversa dos jovens alongou-se em lamentos sobre o imenso stress que tinha tomado conta das suas vidas. O Professor não teceu qualquer comentário e perguntou-lhes se gostariam de tomar uma chávena de chocolate quente. Todos se mostraram interessados.

Dirigiu-se então à cozinha, de onde regressou vários minutos depois com uma grande chaleira e uma grande quantidade de chávenas, todas diferentes – umas de fina porcelana, outras de rústico barro; umas de vidro, outras de cristal; umas com um aspecto vulgar e outras com um aspecto caríssimo. Disse aos jovens para se servirem à vontade e, quando já todos tinham uma chávena de chocolate quente na mão, comentou:

– Reparem como todos procuraram escolher as chávenas mais bonitas e dispendiosas, deixando ficar as mais vulgares e baratas. Embora seja normal que cada um pretenda o melhor para si, é aí que reside a origem dos vossos problemas. A chávena por onde estão a beber não acrescenta nada à qualidade do chocolate quente. Na maioria dos casos é apenas uma chávena mais requintada, e algumas nem deixam ver o que estão a beber. O que vocês realmente queriam era o chocolate quente e não a chávena; mas foram inconscientemente para as chávenas melhores.

Enquanto todos confirmavam, mais ou menos embaraçados, a observação do Professor, este continuou:

– Considerem agora o seguinte: a vida é o chocolate quente; o dinheiro e a posição social são as chávenas. Estas são apenas meios de conter e servir a vida. A chávena que cada um possui não define nem altera a qualidade da vossa vida. Por vezes, ao concentrarmo-nos apenas na chávena acabamos por nem apreciar o chocolate quente que Deus nos ofereceu. As pessoas mais felizes nem sempre têm o melhor de tudo, apenas sabem aproveitar ao máximo tudo o que têm. Vivam com simplicidade. Amem generosamente. Ajudem uns e outros com empenho. Falem com gentileza… e apreciem o vosso chocolate quente."

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Ainda existem Príncipes Encantados

"A pessoa certa não é a mais inteligente, a que nos escreve as mais belas cartas de amor, a que nos jura a paixão maior ou nos diz que nunca se sentiu assim. Nem a que se muda para nossa casa ao fim de três semanas e planeia viagens idílicas ao outro lado do mundo. A pessoa certa é aquela que quer mesmo ficar connosco. Tão simples quanto isto. Às vezes demasiado simples para as pessoas perceberem. O que transforma um homem vulgar no nosso príncipe é ele querer ser o homem da nossa vida. E há alguns que ainda querem.

Os verdadeiros 'Príncipes Encantados' não têm pressa na conquista porque como já escolheram com quem querem passar o resto da vida, têm todo o tempo do mundo; levam-nos a comer um prego no prato porque sabem que no futuro nos vão levar à Tour d’Argent; ouvem-nos com atenção e carinho porque se querem habituar à música da nossa voz e entram-nos no coração bem devagar, respeitando o silêncio das cicatrizes que só o tempo pode apagar. Podem parecer menos empenhados ou sinceros do que os antecessores, mas aquilo a que chamamos hesitação ou timidez talvez seja apenas uma forma de precaução para terem a certeza que não se vão enganar.

O 'Príncipe Encantado' não é o namorado mais romântico do mundo que nos cobre de beijos; é o homem que nos puxa o lençol para os ombros a meio da noite para não nos constiparmos ou se levanta às três da manhã para nos fazer um chá de limão quando estamos com dores de garganta. Não é o que nos compra discos românticos e nos trauteia canções de amor no voice mail, é o que nos ouve falar de tudo, mesmo das coisas menos agradáveis. Não é o que diz 'Amo-te', mas o que sente que talvez nos possa amar para sempre.

O Príncipe que sabe o que quer, não é o melhor namorado do mundo; não é o que olha todos os dias para nós, mas o que olha por nós todos os dias. O que partilha a vida e vê em cada dia uma forma de se dar aos que lhe são próximos. O que quando está cansado fica em silêncio, mas nunca deixa de nos envolver com um sorriso. Não precisa de um carro bestial, basta-lhe uma música bestial para ouvir no carro. Pode ou não ter moto, mas tem quase sempre um cão. Gosta de ler e sai pouco à noite porque prefere ficar em casa a namorar e a ver o Zapping. Cozinha o básico, mas faz os melhores ovos mexidos do mundo e vai à padaria num feriado. O Príncipe é um Príncipe porque governa um reino, porque sabe dar e partilhar, porque ajuda, apoia e nos faz sentir que somos mesmo muito importantes.

Claro que com tantos sapos no mercado, bem vestidos, cheios de conversa e tiradas poéticas, como é que não nos enganamos? É fácil. Primeiro, é preciso aceitar que às vezes nos enganamos mesmo. E depois, é preciso acreditar que um dia podemos ter sorte. E como o melhor de estar vivo é saber que tudo muda, um dia muda tudo e ele aparece. Depois, é só deixa-lo ficar um dia atrás do outro... e se for mesmo ele, fica."

MRP

terça-feira, janeiro 12, 2010

A ordem é...

...viver a vida e impedir que ela viva por nós.

"Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.

Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.

Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!"

João Pereira Coutinho - Jornalista

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Bem-vindos ao ano 2010

Mesmo quando chega aquela altura do dia em que paramos para 'desligar o nosso motor', ele nunca chega a desligar totalmente. Sem perceber bem o porquê, dei por mim a pensar que tinha acabado de se fechar uma nova década. Estamos em 2010.

Vai daí lembrei-me que, quando era mais nova, achava muito engraçado e curioso os meus bisavós - que já cá não estão - terem nascido em datas tão longínquas e diferentes da minha. O meu bisavô era de 1905 e a minha bisavó de 1910. Isto fazia-me imaginar a quantidade de mudanças e evoluções pelas quais eles tinham tido o privilégio - ou não - de passar!

A partir deste ponto, a minha memória divagou e comecei a pensar que a história mundial que os meus filhos e netos irão aprender será bem mais extensa do que aquela que eu tive de aprender na escola. Nessa altura, eles provavelmente irão olhar para mim e ver-me como uma espécie de 'objecto de museu'. Nasci em 1981! Já serei (e sou) alguém que pertence a outro século que não será o deles. Chega a ser um bocado assustador, mas até tem a sua graça.

Divagação puxa divagação, acabei por chegar à conclusão que esta última década (2000-2010) não teve nada de marcante. Todos sabemos o que revolucionou os anos 20, 30, 40, 50, 60, 70, 80 e 90. Todas estas épocas tiveram a sua força na história. Mas então e estes últimos 10 anos? O que é que esta entrada num novo milénio trouxe de importante às pessoas?

A música vive de influências do passado. A dança e a moda também. Até mesmo a política. Os estilos, géneros e atitudes são sempre influenciados por alguma coisa que marcou décadas anteriores. Mas não houve nada, entre o ano 2000 e o 'hoje', de extremamente revolucionário ao ponto de, no futuro, poder servir de influência para algum sector.

No geral, as pessoas andam perdidas. Andam 'por aí'. Deixam-se levar pela vida sem saberem muito bem para onde nem porquê, numa espécie de automatização mecânica. Os valores e princípios são cada vez menos, talvez porque muitos já nasçam sem saber o que realmente significam. Ouvem falar neles mas não ligam. Sabem que existem, mas não se preocupam. A inocência perde-se cedo e o caminho, que antigamente fazia-se questão de delinear, passou a ser uma montanha russa de alta velocidade, cheia de loopings, sem fim nem sentido.

Confesso que foi um momento de 'desligar o motor' um pouco inquietante. Terminei-o com a única conclusão, à primeira vista, viável: esta última década define-se com conceitos tenebrosos... crise, terrorismo e depressão.

Haverá uma reviravolta?

quinta-feira, dezembro 31, 2009

terça-feira, dezembro 29, 2009

Expectativa: "Esperança baseada em supostos direitos, probabilidades ou promessas."

Será a culpa das expectativas?

segunda-feira, dezembro 28, 2009

Ficar nos teus braços, fixar o teu ar, não afastes os teus olhos dos meus!

Quando dormes
E te esqueces
O que vês?
Tu quem és?

Quando eu voltar
O que vais dizer?
Vou sentar
No meu lugar

Adeus, não afastes os teus olhos dos meus
Isolar para sempre este tempo
É tudo o que tenho para dar

Quando acordas
Por quem chamas tu?
Vou esperar
Eu vou ficar

Nos teus braços
Eu vou conseguir fixar
O teu ar
A tua surpresa

Adeus, não afastes os teus olhos dos meus
Eu vou agarrar este tempo
E nunca mais largar

Adeus, não afastes os teus braços dos meus
Vou ficar para sempre neste tempo
Eu vou conseguir pará-lo

Adeus, não afastes os teus olhos dos meus
Vou ficar para sempre neste tempo
Eu vou conseguir pará-lo
Eu vou conseguir pará-lo
Eu vou conseguir ficar.

Lyrics by David Fonseca

domingo, dezembro 27, 2009

O mundo centra-se no seu todo e não nas suas partes.
E eu sou apenas uma parte, dessas mesmas partes.

terça-feira, dezembro 22, 2009

Lovers never lose

"Gosto dos instantes em que sentimos que nos podemos apaixonar por aquela pessoa que conhecemos há 30 segundos, há seis meses ou há um ano e com quem intuímos desde o primeiro instante uma espécie de construção do mundo anterior à nossa própria existência, como se em uma qualquer encarnação anterior já tivessemos sido alguma coisa um ao outro - marido e mulher, irmão ou irmã, tanto faz -, provocando uma imediata sensação de bem-estar que nos faz sentir em casa.

A sensação de familiaridade instantânea é um dos primeiros passos para a verdadeira intimidade, embora quase nunca se chegue tão longe. Isto porque entre os instantes mágicos que fazem de um serão de conversa uma noite perfeita, e o que se pode, ou não, contruir a seguir, vai uma distância sempre impossível de prever. A construção de um caso que pode vir a tornar-se uma história de amor tem muito de alquímico e pouco de entendível: ou há click, ou não há, ou no dia seguinte nós acordamos e sentimos 'é isto que eu quero', ou então ficamos sem saber o que pensar até que a vida se encarrega de arrumar as peças do puzzle e pôr tudo no seu devido lugar. Ainda assim, o tal click também nos pode enganar: às vezes desejamos tanto apaixonar-nos que o nosso subconsciente força esse click; outra vezes temos tanto medo de nos entregarmos, que tapamos os ouvidos para não o escutar. O que há mais para aí são corações partidos, com lesões invisíveis que nenhum cirurgião cardio-toráxico pode curar. Só o tempo e grandes doses de amor continuadas conseguem apagar as lesões mais profundas.

Depois do click, ou do desclick, o melhor é guardar para sempre esse momentos únicos e relembrá-los sempre que isso nos traz alegria, ou arrumá-los numa gaveta ordeira da memória se nos perturbam. Em tempos chamei-lhe guardar a doçura, mas depois enjoei-me do substantivo para sempre, e do adjectivo então é melhor nem falar - sempre que alguém me diz que sou uma pessoa muito doce, dá-me logo vontade de pegar numa G3 e de me transformar num mercenário em causa própria. Por isso, agora uso apenas o verbo guardar, de mãos dadas com o verbo ganhar, porque acredito que tudo o que se vive em paz e de coração aberto é sempre uma mais-valia, mesmo que o desfecho não seja aquele com que sonhámos.

Incorrendo na prática pirosa da auto-citação, regresso às páginas do meu último romance, onde escrevi: «Uma das melhores coisas da vida é que ela muda. Nem sempre muda quando queremos ou desejamos, mas muda». Há muito que aprendi a aceitar que a realidade é evolutiva; o que é verdade hoje pode não o ser amanhã. Assim, há clicks que anunciam um amor homérico, o qual mais tarde se transforma em pó, cinzas e nadas, e outros, mais tímidos, que se vão repetindo até se transformarem numa grande história de amor.

Gosto de acreditar que entre projecções, sonhos e desejos, entre clicks enganadores e desclicks trapalhões, há os abençoados, os que duram para sempre."

MRP In Sol, 27/11/2009 [poderia, mais uma vez, ter sido uma PTP!]

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Egoísta…não sei, não sei…não quero…será, não será…consome-me ser, não ser, não saber, querer, não querer, pensar, não pensar, expressar, não expressar…o egoísmo é a atitude de uma pessoa colocar seus interesses, opiniões, desejos, necessidades em primeiro lugar, em detrimento das demais pessoas com quem se relaciona. Não, não posso, não é!

Este conflito de emoções, um turbilhão, em ciclone, redemoinha. É bom, será fantástico, uma aventura, uma magia de cores, luz e acção. A tua mente imagina, antecipa, os olhos brilham e o sorriso rasga-se, liberta-se a adrenalina!

Disfarçar, enfrentar, racionalizar, queres partilhar o sorriso ansioso, adornar o brilho expelido, inspiras, expiras, suspiras, contorces, apertas, queres calar o coração e, contra toda a batalha que travas, ele grita ainda mais alto! O rosto inexpressivo, adormecido, incolor, que continua a lutar, a contrariar, a impugnar. Depois revolta-se, enfurece-se, entristece-se, enraivece-se, expele emoções confusas, dúbias, insondáveis, inexplicáveis, indizíveis.

A teoria é sempre tão simples mas quase sempre impraticável. Não é egoísmo, é um querer inato, um desejo fetiche, uma vontade brutesca de querer partilhar o que não vai ser partilhado.

O coração palpita, a respiração acelera, sem controlo, sem sentido, num caminho sem rumo, desnorteada, desvairada. O olhar deambula, sem a luz que quer dar e não é capaz, num tormento grotesco que a razão silencia violentamente, em esforço, num impulso firme e resistente que dói, que amargura, a psicalgia!

A mente, racional, consciente, sabe que todo este egoísmo não egoísta é fútil, dotado de insignificância futura porque hoje é sempre o primeiro dia do resto da tua vida!...