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quinta-feira, setembro 15, 2011

Passo os meus dias da semana a ver blogues [ossos do ofício] e sempre que o faço penso "clico aqui e ali, leio, não leio, solto uma gargalhada, torço o nariz, franzo as sobrancelhas, abano a cabeça", mas cuidar do meu que seria "bem e bonito" é que "tá quieta". Pois... não está bem.

Tenho mesmo que começar a dedicar-me ao meu "canto", nem que seja SÓ mais um bocadinho. Porque não? Todos os dias apetece-me escrever, nem que sejam só meia dúzia de palavras sem sentido, mas depois...heis que chega a Sra. preguiça e nada feito. Pois... está mal! Passam-se dias, semanas, até meses e nicles. Nem "xus nem mus". Voto contra.

A ver se é desta que a coisa muda.

quarta-feira, julho 27, 2011

My tears dry on their own

"Não temos para sempre 27 anos. Nem 18. Nem 35. Não temos duas oportunidades. Não andamos por cá duas vezes. Temos uma vida. Temos esta vida. Que é boa, que é má, que é assim-assim. Mas só temos esta. Andamos na estrada a 180 porque a nossa condução é fiável. Tomamos drogas, bebemos mais do que a dose. Fodemos a vidinha aos outros porque não temos nada mais giro para fazer. Somos estúpidos. Cada um de nós, à sua maneira. Perdemos tempo com merdas que não interessam a ninguém. Somos maldosos, imbecis, porque nos esquecemos que tudo volta a duplicar. What goes around comes around. Irritamo-nos com tudo, perdemos a tolerância. A felicidade alheia chateia. E enquanto chateia, a vida passa. E enquanto apontamos o dedo, não estamos a dar por isso. E enquanto choramos sobre o leite derramado, não estamos a dar por isso. E enquanto estamos tão iludidos a olhar para o nosso umbigo, não estamos a dar por isso. E enquanto vivemos a vida dos outros (e a dissecamos, e a julgamos, e a condenamos), não estamos a dar por isso. E um dia o carro vira-se numa curva. E um dia a doença toma conta de nós. E um dia encontram-nos caídos em casa, porque o coração cedeu, inexplicavelmente. E um dia um maluco larga uma bomba, mata-nos a tiro.

Enquanto vivermos a achar que é para sempre, para sempre seremos idiotas. Tudo pode acabar em segundos. Queremos mesmo gastá-los assim?"

terça-feira, maio 24, 2011

Mealheiro dos sonhos

Pela 1ª vez desde que me lembro de existir cheguei à conclusão que sonhar também cansa. Pelo menos  assim, nestas doses pouco moderadas.

Vou fazer uma pausa. Preciso de fazer uma pausa para não deixar partir o mealheiro onde os guardo. Permanecer uns tempos algures entre o céu e a terra, seja lá onde isso for.

Não deixei, não deixo, nem deixarei de acreditar nos sonhos, pelo contrário. Preciso apenas de parar um pouco, respirar o ar deste solstício, cheirar o mar infinito, sentir a brisa no corpo e olhar para os mais variados tipos de vida que me rodeiam.

Por isso, digo aos meus sonhos somente um... até já!

segunda-feira, maio 09, 2011

Don't count the days, make the days count

"I'd always heard your entire life flashes in front of your eyes the second before you die. First of all, that one second isn't a second at all. It stretches on forever, like an ocean of time. For me, it was lying on my back at Boy Scout Camp, watching falling stars. And yellow leaves from the maple trees that lined our street. Or my grandmother's hands, and the way her skin seemed like paper. And the first time I saw my cousin Tony's brand-new Firebird. And Janie... and Janie. And... Carolyn. I guess I could be pretty pissed off about what happened to me, but it's hard to stay mad when there's so much beauty in the world. Sometimes I feel like I'm seeing it all at once, and it's too much. My heart fills up like a balloon that's about to burst. And then I remember to relax, and stop trying to hold on to it. And then it flows through me like rain. And I can't feel anything but gratitude for every single moment of my stupid little life. You have no idea what I'm talking about, I'm sure. But don't worry, you will someday."

quinta-feira, abril 21, 2011

A cor da Felicidade

"Agora é que foi mesmo, apaixonei-me pela pessoa certa e sou feliz.

A vida tem destas coisas e de vez em quando traz-te grandes surpresas. E o Bom Rapaz é a surpresa da década. Já nem me lembro da última vez que me senti assim, mergulhada neste estado de graça em que tudo é azul e branco, e nada disto tem a ver com o sabão conhecido pelas mesmas características.

Lembro-me de estar apaixonada, isso sim, mas dessa paixão me trazer vazio, ausência, esperas infrutíferas, isolamento, tristeza, decepção. Ora, o que estou a viver com o Bom Rapaz é exactamente o oposto de tudo isso e tão diferente daquilo a que o meu coração se habituou que até fui outra vez à médica do mesmo para confirmar se estava tudo bem, a peça no seu lugar e o meu músculo da vida a bombear de forma ordeira e generosa, como é de sua essência e obrigação.

(...)

Lembro-me de acordar e de querer dizer à minha mãe que já estava salva. A máscara de oxigénio entre a minha vontade e o mundo fazia com que os sons saíssem abafados e estranhos, de modo que fui comparada ao Darth Vader, o símbolo cinéfilo do Lado Obscuro da Força, isto para quem nunca viu esse grande clássico que é A Guerra das Estrelas.

Coitada da minha mãe, sempre com aquele ar seráfico, toda mordida de medo por dentro porque uma operação ao coração não é o mesmo que desencravar uma unha, e eu ali, a acordar devagarinho, a regressar ao mundo onde as pessoas se chateiam com coisas sem importância nenhuma porque têm saúde e nem se lembram dos que estão nos hospitais a colocar chapéus de chuva no coração, ou outras peculiaridades.

Isto tudo para te explicar que a separação de sangues também se deu na minha vida real quando me apercebi de que o passado estava arrumado no lugar onde deve estar sem infiltrações no presente nem qualquer peso no futuro, de forma que a paixão e o amor que agora vivo não têm nenhuma nuvem a pairar sobre a sua beleza. Vivo um amor todo claro sem neblina nem geada, suave e seguro na ausência, violento e vulcânico na presença, feito de corpo, alma, coração e sexo, de entrega, verdade e paixão, de respeito e de entendimento, de riso e de admiração, de presente e de futuro, projectado em casa ainda não vividas, sonhado em viagens a consumar, desenhado a quatro mãos em sonhos e planos possíveis, vontades por descobrir e desejos a realizar.

O lado bom de ter um coração novo é que só entra lá para dentro quem tu queres. E como os fantasmas já se diluíram no sangue e no tempo, aqui me encontro, entregue à felicidade, onde tudo é branco como todas as cores e azul como o céu.

Vivo o céu na terra, sou uma mulher cheia de sorte."

Margarida Rebelo Pinto in "A minha casa é o teu Coração"

segunda-feira, abril 04, 2011


quinta-feira, março 31, 2011

Pertenço à geração "casinha dos pais"

E a esta altura da vida começa a não ser nada fácil.

Tem as suas vantagens, não posso negar, mas cada vez compensam menos relativamente ao desejo de termos o nosso espaço.

Não termos que cumprir os horários estipulados (que, por motivos geracionais são opostos), não termos que dar satisfações por tudo e por nada, não termos que levar na cabeça naqueles dias em que só nos apetece alguma paz e sossego, não termos que estar preocupados se está tudo no sítio, limpo e arrumado quando chegamos do trabalho cansados e nos apetece relaxar um bocado antes de começarmos a pensar nesses pormenores, não termos que aturar "mesquinhices, taras e manias", não termos que discutir por causa do plano de férias, por causa de um fim de semana passado fora de casa, por causa da cadela que está com o cio, por causa da água quente que se gastou, and so on. Isto sem falar, claro, da pressão que de ano para ano, mês para mês, semana para semana, dia para dia, aumenta. É desgastante. Não querendo ser ingrata, já não se aguenta!

Das duas uma: ou ganho o euromilhões ou não tarda nada vou ter de parar, reflectir, e fazer contas à vida! 

Porque não nasci eu, tipo... sei lá... nos anos 60?...

quarta-feira, março 30, 2011

Leituras

Hoje, no escritório, recebemos a LuxWoman Edição Especial Casamento.Vi-a porque tenho de ver - faz parte das minhas funções laborais - mas vi-a também porque sou uma sonhadora e, como tal, sabe sempre bem - mesmo que possa ser um acto feminino masoquista, como referi no meu post anterior - ir folheando, admirando e, sobretudo, imaginando.

Pormenores à parte, saltou-me à atenção o artigo intitulado "O 1º ano - A prova de fogo" que começa com o seguinte parágrafo:
"Pode ser uma faca de dois gumes: por um lado, a paixão está bem acesa, mas é agora que se realçam as diferenças. Prepare-se para o grande desafio que é o seu primeiro ano de casamento!". 

Ainda há quem me venha dizer que ou é muito cedo ou é muito tarde para dar o "grande passo" (respeito quem o veja assim, eu atribuo-lhe mais o conceito de "passo natural" ou celebração de um sentimento único e mútuo). O conhecimento entre dois seres dá-se durante uma vida inteira, até porque as pessoas mudam. Pouco, pois considero que a verdadeira essência fica sempre, mas mudam. Nunca é tarde, nem nunca é cedo. Basta sentir. Basta querer. Basta desejar. Basta amar.

Adiante.

De entre os vários pontos/conselhos deste artigo destaco, por razões tão actuais, dois:
"- OS CONFLITOS SÃO SAUDÁVEIS: Por isso não os ignore. As discussões fazem parte da vida de qualquer casal e, desde que decorram dentro dos parâmetros do respeito e levem à resolução de um problema, podem até ser saudáveis.
- NÃO DEIXE O ORGULHO DESTRUIR A COMUNICAÇÃO: 'Nunca se deitem zangados.' É um conselho que muitas de nós já ouvimos das avós nos primeiros tempos de casadas. Nunca deixe nada por resolver. Pedir desculpa e assumir os erros quando temos noção de que não agimos correctamente são atitudes que fazem com que uma relação seja mais saudável."

Realmente...há coisas do "arco da velha"!...

quinta-feira, março 24, 2011

O que será do amanhã se nem sabemos do hoje

Tenho a noção de que até o meu próprio pensamento anda confuso.

Aos 18 anos achava que aos 25 já ia estar casada e que até aos 30 seria mãe.

Hoje, com 29 anos e 8 meses, por vários motivos, dou graças aos céus por isso não ter acontecido, mas tenho guardados num cofre todos os mesmos desejos de há 11 anos atrás. Mais maduros, é certo, mas ainda existem e estão bem vivos.

Mesmo assim, por vezes, questiono-me se actualmente não será um acto egoísta colocar no mundo um ser humano que se confrontará com um futuro que se avizinha tão negro. Se eu, com esta idade, não sei “o que será da minha vida”, o que será a dos que vêem atrás de mim? Analisando mais pormenorizadamente, nem as gerações mais antigas, que certamente achavam que teriam um fim de vida sossegado, após terem cumprido as suas missões enquanto cidadãos, sabem hoje como serão os poucos dias que lhes restam.

O mundo transformou-se em tudo menos num mar de rosas...e grande parte da humanidade está como eu: com os sonhos encarcerados num cofre. Na alma. No coração. Esses não estão sujeitos a IVA, não têm que ser declarados, não entram no PEC, nem sofrem subidas de juros. São de graça. Pelo menos ainda.

Haja força e optimismo para acreditar que ainda é possível uma reviravolta, para que se possam abrir todas estas opostas caixas de pandora...

quarta-feira, março 09, 2011

Há coisas que nunca mudam

Com a quase chegada à tão “abominável” e temida entrada nos 30, paro um pouco e reflicto sobre tudo o que ouço – de amigos, de familiares, de desconhecidos que conversam sem se aperceberem que ali ao lado está alguém atento às palavras trocadas.

Os 30… a primeira reacção: “Que horror, estou a ficar mesmo velha!”, ou então: “Já?? Como o tempo passa depressa…”. Pois passa e, infelizmente, passamos cerca de um quarto de vida a desejar “ser grande” para depois chegarmos à conclusão que bom era ser criança e, a partir daí, passarmos o restante quarto de vida e a outra metade a desejar não termos crescido tão depressa.

Tenho algumas amigas que já completaram os seus 30 anos de existência. E amigos também, a maioria. Mas para os homens a entrada nos 30 está longe de ser um drama. Afinal os trintões, aos olhos de muitas mulheres, esbanjam charme, já sendo expectável a maturidade, o respeito, o cavalheirismo e a dedicação que aos 20 não nos davam por – pensamos nós – infantilidade, despreocupação e/ou distracção.

Mas 30 anos para uma mulher são tudo menos razão para festejos efusivos. Começamos a queixar-nos das rugas (e, consequentemente, a corrermos para comprar os cremes anti-rugas que antigamente só a mãe e a avó precisavam/usavam), a repararmos que o rabo está descaído, que as mamas já não são bem o que eram e que, no geral, todo o nosso corpo apresenta uma certa flacidez e alguns defeitos nunca antes detectados. Aparecem brancas no cabelo, a memória deixa de ser o que era, e tudo isto…de um dia para o outro.

Não será antes o facto de, a partir desse dia, olharmos para nós ao espelho e passarmos realmente a VER? Sim, porque antes, ainda sem a pressão inerente a esta idade ou sem os complexos “impingidos” pela sociedade, simplesmente olhávamos para o espelho…mas não víamos o que de um minuto para o outro passa a ser uma dor de cabeça.

Na rua passamos a aperceber-nos que as pessoas nos tratam por “senhora” em vez de “menina”. Mas nem ligamos ao pormenor dessas mesmas pessoas serem miúdas de 18 anos, e que também nós nessa idade achávamos os trintões uns “cotas”. Em todo o lado começam a perguntar-nos pelo casamento, pelos filhos, pela casa…e muitas de nós, mulheres de 30 anos, ainda vivemos com os pais, sem perspectivas desse futuro pelo qual nos perguntam, embora já com uma vontade imensa de o viver.

Ainda tenho 4 meses para aproveitar a casa dos “20”. Mas VEJO-ME e as rugas estão aqui. Em torno dos olhos, nos cantos da boca. Rugas de expressão, como lhes chamam. Não apareceram hoje, nem ontem, nem tão pouco sei precisar o momento em que surgiram, mas já cá andam. É natural, fazem parte da evolução normal de um ser humano. Se gosto delas? É óbvio que não. Mas o que fazer? Tenho de aprender a lidar com o envelhecimento e tentar minorar o seu desenvolvimento com o que actualmente existe. Exercício físico, cosméticos, tratamentos de estética. Já é uma sorte existir essa evolução científica e podermos usufruir dela. Quanto ao resto nada de muito diferente a declarar. O peito está no lugar, o rabo – maior ou mais pequeno – tem a sua cruz e nunca fará parte das minhas preferências. O cabelo continua forte e a dar trabalho q.b., a memória já foi melhor mas ainda está longe do inimigo Alzheimer.

O meu corpo vai realmente fazer 30 anos. Não há remédio nem volta a dar. Mas o meu “Eu” interior está longe de envelhecer e de acompanhar o ritmo do meu físico. Penso em mim, na minha pessoa, e sorrio. É que às vezes tenho a plena noção de que devo mesmo “roçar” nos limites do ridículo. Continuo a sentar-me no degrau de uma escada, na beira de um passeio, ou até no chão se for preciso. Continuo a escrever “bilhetinhos” como fazia nos tempos de estudante, mas agora em reuniões de trabalho. Continuo a ter ataques de riso incontroláveis quando vejo uma imagem cómica – ou não –, quando ouço o impensável, quando vejo cenários inesperados, ou quando me lembro de momentos únicos. Pior mesmo é ter estes ataques de riso sem motivo aparente e não conseguir parar por ficar nervosa exactamente… por não conseguir parar. Continuo a atirar-me para o chão quando o riso já me faz doer a barriga. Continuo a ver desenhos animados e a chorar com a história, se for triste. Continuo a ir à queima das fitas para estar com os amigos, a saltar de barraca em barraca, e sair de lá aos S’s. Continuo a tropeçar por estar distraída, a pensar no dia de ontem, ou a deixar cair tabuleiros e objectos afins por ter mãos de manteiga. Continuo a vestir calças rotas, a calçar "All Star" e a comprar camisolas com bonecos da BD. Continuo a gostar de entrar em parques infantis e andar nos baloiços e escorregões. Continuo a fazer sons parvos e a inventar nomes idiotas para dar às coisas ou às pessoas. Concluindo, continuo igual a mim própria.

Não sou casada, não tenho filhos, não tenho casa. Mas tenho trabalho e um tecto graças aos meus pais que me permitiram tê-lo. Sou saudável, tenho bons amigos, um namorado (até agora) perfeito, e muitos outros detalhes que fazem o meu dia-a-dia feliz.

Quanto ao que ainda falta “life goes on”, caminhando se faz o caminho e tudo o tempo se encarregará de esclarecer. Também já ouvi dizer, por várias bocas, que a fase dos 30 é a melhor fase da mulher, em todos os aspectos. Se assim for até fico expectante.

Independentemente de tudo, há coisas que nunca mudam, e continuo a ter em mim “todos os sonhos do mundo”.

05/03/2011 – Escrito metade na terra, metade nos céus

quarta-feira, março 02, 2011

Assim vai Portugal...

Este país não é para corruptos
Em Portugal, há que ser especialmente talentoso para corromper. Não é corrupto quem quer



... Que Portugal é um país livre de corrupção sabe toda a gente que tenha lido a notícia da absolvição de Domingos Névoa. O tribunal deu como provado que o arguido tinha oferecido 200 mil euros para que um titular de cargo político lhe fizesse um favor, mas absolveu-o por considerar que o político não tinha os poderes necessários para responder ao pedido. Ou seja, foi oferecido um suborno, mas a um destinatário inadequado. E, para o tribunal, quem tenta corromper a pessoa errada não é corrupto - é só parvo. A sentença, infelizmente, não esclarece se o raciocínio é válido para outros crimes: se, por exemplo, quem tenta assassinar a pessoa errada não é assassino, mas apenas incompetente; ou se quem tenta assaltar o banco errado não é ladrão, mas sim distraído. Neste último caso a prática de irregularidades é extraordinariamente difícil, uma vez que mesmo quem assalta o banco certo só é ladrão se não for administrador.
O hipotético suborno de Domingos Névoa estava ferido de irregularidade, e por isso não podia aspirar a receber o nobre título de suborno. O que se passou foi, no fundo, uma ilegalidade ilegal. O que, surpreendentemente, é legal. Significa isto que, em Portugal, há que ser especialmente talentoso para corromper. Não é corrupto quem quer. É preciso saber fazer as coisas bem feitas e seguir a tramitação apropriada. Não é acto que se pratique à balda, caso contrário o tribunal rejeita as pretensões do candidato. "Tenha paciência", dizem os juízes. "Tente outra vez. Isto não é corrupção que se apresente."


Por Ricardo Pereira Araújo in Visão

terça-feira, fevereiro 22, 2011

As histórias da "Anita"

"Um mundo cor-de-rosa onde as personagens adultas são meros figurantes da felicidade."

quinta-feira, janeiro 13, 2011

"Para ser grande sê inteiro"

"Ricardo Reis é - nas palavras do Pessoano Prado Coelho - entre os heterónimos o 'amante do exacto', aquele que prega os ensinamentos firmes e nobres que vêm pela herança clássica do homem, desde os romanos e os gregos.

Reis é assim, como Caeiro, aquele que aceita a vida sem pensar, mas Reis, oposto de Caeiro, sente em si mesmo a opressão da Natureza e da vida. Se Caeiro aceita ingenuamente a realidade, Reis ressente-se com ela e gera em si mesmo um sofrimento com a perda que escolhe ser a sua.

Caeiro acredita num Deus fora de si que é um Deus disforme, feito Natureza, enquanto Reis confia em deuses incertos e vagos, símbolos rasos de uma crença pouco uniforme, à maneira dos clássicos, em que os deuses informam nos medos e nas desconfianças dos homens.

(...)

Reis, se por um lado defende não haver uma fé em que o 'homem seja inteiro', defende por outro que o homem 'seja inteiro sem a fé'. É um principio basilar da filosofia de Ricardo Reis que o homem encontre no seu sofrimento a sua nobreza, ou seja, que aceite a dor da vida de maneira inteira, que seja inteiro nesse sofrimento, mesmo que não seja inteiro numa fé. É mesmo por não ser inteiro numa fé que o homem deve ser forte em ser inteiro na realidade, como é.

'Para ser grande, sê inteiro', diz Ricardo Reis. O homem, porque aceita a realidade, deve ter uma atitude nobre mesmo perante o sofrimento que vem com essa aceitação.

'Nada teu exagera ou exclui'. Reis defende que o homem abdique de tudo, mas que não abdique de si próprio. Apenas aquilo que é ilusório deve ser extirpado da experiência humana, porque apenas traz ao homem a humilhação. Entre essas coisas estão a religião e o amor.

Ataraxia - calma de espírito, resignação - e em Reis sobretudo: indiferença. Este é a palavra chave para resumir a atitude de Reis-Pessoa, e também de Pessoa-Reis, perante a vida.

'Sê todo em cada coisa'. Ou seja, procura em cada coisa a tua inteira felicidade, porque a felicidade, se está nos objectos, não está na realidade. E é no campo estrito dos objectos, e não da vida, que o homem expressa a sua personalidade. Trata-se enfim de uma visão estóica, de um sofrimento e de uma resignação que encontra apenas um campo muito limitado de liberdade humana.

Mas toda esta atitude é, curiosamente, nobre. Nobre porque em Ricardo Reis o homem aceita o seu destino como um gladiador aceita a sua morte na arena. É nobre porque nessa aceitação há uma compreensão obliqua do que se aceita. Reis sabe que vai sofrer ao aceitar o sofrimento desta maneira - que não é a maneira ingénua de Caeiro - mas é ao aceitar esse sofrimento que se afasta dos outros homens tornando-se superior a eles pela sua atitude.

A poesia de Caeiro é uma poesia de segundos. Cada momento é toda uma vida, porque em cada momento se exprime uma liberdade renegada, um alcançar de um objecto, uma finalidade. Isto porque a realidade já não existe, porque há apenas renúncia e resignação.

Quando Ricardo Reis refere o brilho da lua no lago e nos diz que no lago toda a lua vive, mesmo só no reflexo, dá-nos um símbolo para a compreensão completa do seu pensamento, tal como foi explanado anteriormente.

É na 'altura' que a lua vive e não na proximidade. O reflexo dá-nos uma noção do afastamento da realidade que a lua tem com a água onde se reflecte. Quem a vê no reflexo, vê-a por inteiro, mas não conhece a sua essência. No entanto ali está toda a lua. Tal como o homem, ao se dar, pode dar o seu reflexo à realidade, à sociedade, sem que ninguém o conheça no seu intimo. Apenas o seu reflexo.

Esta atitude, este 'viver pelo reflexo', 'na altura', é uma atitude nobre e estóica de Ricardo Reis. Uma atitude de afastamento e nobreza, que caracteriza toda a sua poesia".

@http://www.umfernandopessoa.com

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Um dia de uma vida, uma tarde na cidade


No hinduísmo, Ganesh é uma das mais conhecidas e veneradas representações de Deus. Ele é o primeiro filho de Shiva e Parvati, e o esposo de Buddhi e Siddhi. 'Ga' simboliza Buddhi (intelecto) e 'Na' simboliza Vijnana (sabedoria). Ganesh é então considerado o mestre do intelecto e da sabedoria.

Ele é representado como uma divindade amarela ou vermelha, com uma grande barriga, quatro braços e a cabeça de elefante com uma única presa, montado num rato. É habitualmente representado sentado, com uma perna levantada e curvada por cima da outra. Em geral, antepõe-se ao seu nome o título Hindu de respeito 'Shri' ou Sri.

Ganesh é o símbolo das soluções lógicas e deve ser interpretado como tal. O seu corpo é humano enquanto que a cabeça é de um elefante; ao mesmo tempo, o seu transporte (vahana) é um rato. Desta forma, Ganesh representa uma solução lógica para os problemas, ou "Destruidor de Obstáculos". Sua consorte é Buddhi (um sinónimo de mente) e ele é adorado junto de Lakshmi (a deusa da abundância), pelos mercadores e homens de negócio. A razão, sendo a solução lógica para os problemas, e a prosperidade são inseparáveis.

A figura de Ganesh é também um arquétipo cheio de sentidos e de um simbolismo que expressa um estado de perfeição, assim como os meios de obtê-lo. Ganesh, de facto, é o símbolo daquele que descobriu a Divindade dentro de si mesmo.

Ganesh é o som primordial - OM - do qual todos os hinos nasceram. Quando Shakti (Energia) e Shiva (Matéria) se encontram, o Som (Ganesh) e a Luz (Skanda) nascem. Ele representa o perfeito equilíbrio entre força e bondade, poder e beleza. Ele também simboliza as capacidades discriminativas que providenciam a habilidade de perceber a distinção entre a verdade e a ilusão, o real e o irreal.

A imagem de Ganesh é composta por quatro animais: homem, elefante, serpente e rato. Todos eles, individualmente e colectivamente, têm um profundo simbolismo.

Cada elemento do corpo de Ganesh tem o seu próprio valor e o seu próprio significado:

* A cabeça de elefante indica fidelidade, inteligência e poder discriminatório;
* O facto dele ter apenas uma presa (estando a outra quebrada) indica a habilidade de Ganesh superar todas as formas de dualismo;
* As orelhas abertas denotam sabedoria; habilidade para ouvir pessoas que procuram ajuda e para reflectir sobre as verdades espirituais. Elas simbolizam a importância de escutar para conseguir assimilar ideias. As orelhas são usadas para ganhar conhecimento. As grandes orelhas indicam que quando Deus é conhecido, todo o conhecimento também o é;
* A tromba curvada indica as potencialidades intelectuais que se manifestam na faculdade de discriminação entre o real e o irreal;
* Na testa, o Trishula (arma de Shiva, similar a um Tridente) é desenhado, simbolizando o tempo (passado, presente e futuro) e a superioridade de Ganesh sobre ele;
* A barriga de Ganesh contém infinitos universos. Ela simboliza a benevolência da natureza e unanimidade; a habilidade de Ganesh sugar os sofrimentos do Universo e proteger o mundo;
* A posição das suas pernas (uma a repousar no chão e a outra de pé) indica a importância da vivência e a participação no mundo material assim como no mundo espiritual; a habilidade de viver no mundo sem ser do mundo.
* Os quatro braços de Ganesh representam os quatro atributos do corpo subtil, que são: mente (Manas), intelecto (Buddhi), ego (Ahamkara), e consciência condicionada (Chitta). O Senhor Ganesh representa a pura consciência - o Atman - que permite que estes quatro atributos funcionem em nós;
* A mão que segura uma machadinha é um símbolo da restrição de todos os desejos que trazem dor e sofrimento. Com esta machadinha Ganesh pode repelir e destruir os obstáculos. A machadinha serve também para levar o homem para o caminho da verdade e da rectidão;
* A segunda mão segura um chicote, símbolo da força que leva o devoto para a eterna beatitude de Deus. O chicote diz-nos que os apegos mundanos e os desejos devem ser deixados de lado;
* A terceira mão, em direcção ao devoto, está numa pose de bênçãos, refúgio e protecção (abhaya);
* A quarta mão segura uma flor de lótus (padma) e simboliza o mais alto objectivo da evolução humana, a realização do seu verdadeiro eu.

Em termos gerais, Ganesh é uma divindade muito amada e frequentemente invocada, já que é o Deus da Boa Fortuna, que proporciona prosperidade, e também o Destruidor de Obstáculos de ordem material ou espiritual. É por este motivo que a sua graça é invocada antes de se iniciar qualquer tarefa (por exemplo viajar, prestar uma prova, realizar um negócio, uma cerimónia, uma entrevista de trabalho). É também por este motivo que, tradicionalmente, todas as sessões de bhajan (cântico de devoção) se iniciam com uma invocação a Ganesh, o Senhor dos "bons inícios". Por toda a Índia de cultura hindu, o Senhor Ganesh é o primeiro ídolo colocado em qualquer nova casa ou templo.

Além disso, Ganesh é associado ao primeiro chakra, que representa o instinto de conservação, sobrevivência e procriação. O nome desse chakra é muladhara.

Ganesh é também definido como Omkara ou Aumkara, que significa "tem a forma de Om". De facto, a forma do seu corpo é uma cópia do traçado da letra Devanagari que indica este grande Bija Mantra. Por causa disso, Ganesh é considerado a encarnação corporal do Cosmos inteiro. Ele está na base de todo o mundo fenomenal...

"Om ganaman tva ganapatigm havamahe kavim kavinamupamashravastanam
jyestharajam brahmanam brahmanaspata a nah shrunvannutibhih sida sadanam"

segunda-feira, outubro 11, 2010

Curiosidades astrológicas...


Nas alturas em que temos de tomar decisões importantes e, diria mesmo, cruciais, tudo é válido. Agora, resta-me acreditar!...

"Imagina-te a assistir a um filme: o filme da tua vida – pelo menos por um período de seis meses, aproximadamente. Entretanto, como em qualquer sessão de cinema, há uma sinopse, uma espécie de síntese daquilo que será mais marcante no espectáculo a que vais assistir.

Aqui, esta síntese é representada por um dos 56 arcanos menores do Tarot. Cada carta aponta para um cenário diferente, que pode ser afectivo, profissional, intelectual ou espiritual. Este cenário mostra quais serão os assuntos mais recorrentes e importantes neste teu ciclo de - aproximadamente - seis meses.

A força que marca estes teus próximos tempos é a do Fogo, claramente demonstrada pela simbologia do naipe de paus. O teu momento é purificador, regenerador. O transbordar de uma poderosa intuição vai-te permitir compreender quais os caminhos que devem ser trilhados e vais desafiar a tua própria alma ao trilhar tais roteiros. A emergência de uma carta do naipe de paus revela que algo, no mais profundo da tua alma, está a transbordar, para que traves contacto com os aspectos mais íntimos do teu ser. Estes próximos meses serão marcados por desafios poderosos que farás a ti mesma e também por percepções mais amplas da realidade ao teu redor. O momento é de tomar iniciativas que permitirão mudar o contexto das coisas que não aprecias na tua vida.

Cenário: Uma cena de triunfo, em que uma personagem central é aplaudida.

O 6 de Paus (o arcano VI deste naipe traduz sucesso, plenitude, autoconfiança e uma energia receptiva capaz de revelar o equilíbrio interior) emerge como o significante central do teu jogo de Tarot Semestral, sugerindo que esforçaste-te, empenhaste-te e que, provavelmente, atingirás uma meta especial nestes próximos meses. Algum tipo de prémio ou manifestação de reconhecimento vai-se dar e tu terás que assumir um papel de liderança, ainda que tal coisa possa ser temporária. Haverá razões para alegria, só não penses que as glórias são eternas, pois tudo passa.

Síntese do Semestre: Estes próximos meses serão marcados por uma conquista pessoal muito importante. Após um período passado de muito esforço e exaustão, finalmente poderás colher os louros do triunfo. Poderás esperar por reconhecimento e aclamação pelos teus esforços. Aproveita para comemorar, estando mais perto dos teus amigos e das pessoas amadas."

segunda-feira, setembro 13, 2010

Até onde nos auto-comandamos (?)

No dia em que batemos com a 'cabeça na parede' - seja pela primeira ou milésima vez, com mais ou menos impacto e danos físicos e/ou psicológicos - temos a tendência inconsciente e absolutamente imediata de dizermos 'com esta já aprendi', ou então 'nunca mais me apanham numa (situação) igual'.

Na verdade, aprendemos sempre alguma coisa com estes acidentes de percurso (mau era!).

Na verdade, muitos destes acidentes começam a ser totalmente evitados (felizmente).

Na verdade, com estes erros crescemos (e geralmente é mesmo sinal de que estamos a envelhecer).

Na verdade, acredito - e quero mesmo continuar a acreditar - que nunca nada acontece por acaso (caso contrário, qual o sentido de uma vida?).

Mas, também na verdade, quando nos envolvemos emocionalmente com a potencial situação de 'perigo', a afirmação do 'nunca mais' transforma-se numa questão tão subjectiva, que se torna quase impossível de gerir ou sequer de controlar.

Eu bem disse para mim própria que... 'nunca mais'. E, na verdade, hoje estou envolvida de corpo e alma naquilo em que um dia prometi a mim mesma que... 'nunca mais'.

O meu Eu fundiu-se com outro Eu. E agora, em vez de dizer... 'nunca mais' digo antes, numa tentativa de colmatar a falha racional, 'espero nunca mais ter que pensar ou dizer...nunca mais'.

segunda-feira, julho 26, 2010

Quebrar o Gelo

Sai de dentro das linhas e faz tudo para que te chamem estúpido. Se isso acontecer é o elogio pelo teu espectáculo.

Saíste das regras, conseguiste, e o julgamento do olho normal, dentro da linha, considera-te estúpido, desalinhado.

Quer isso dizer que te libertaste. Sem medo do ridículo. Libertaste os pensamentos, extravasaste em criação e, sobretudo, não te levaste a sério. Nunca te leves a sério. Isso é coisa de gente esperta e de espertos já está o mundo cheio.

Be stupid e dá algo novo. Afinal, ser estúpido pode ser só ser consciente de que nunca se tem nada a perder. Ser estúpido é correr riscos e, para correr riscos, embora sendo-se estúpido, é preciso ser-se bravo. Isto no caso de se ser estúpido por consciência e confiança, e não por pura falta de noção das circunstâncias.

Sê estúpido como um brilhante palhaço. Sê estúpido como só tu mesmo, ou entra numa de revivalismo à atitude trash com inspiração jackass e quando vires um par de calças que valem no mercado 3 centos de euro, na rua, dentro de um paralelo de gelo, a título de exercício, arma-te de picaretas, maçaricos, martelos e uma grande vontade de pura diversão. Sem troféus. Apenas desafio ao engenho e boa disposição.

É um jogo e, embora o prémio não seja a paz de espírito, levam-se umas calças de ganga e mais tudo o que se pode ganhar com a experiência de um dia ter perdido a vergonha, o limite e o risco, não tendo importância o motivo mas sim a consequência.

Be stupid.

SMART SEES WHAT THERE IS. STUPID SEES WHAT THERE COULD BE.
SMART LISTENS TO THE HEAD. STUPID LISTENS TO THE HEART.
SMART MAY HAVE THE BRAIN. STUPID HAS THE BALLS.


In DIF, edição nº75

segunda-feira, julho 12, 2010

No meu tempo não era assim...

“Estás bonita nesta foto” – tinha sido no baile de debutantes, na sua apresentação à sociedade, quando este ainda era no Palácio da Bolsa. O vestido era deslumbrante; branco como manda a tradição, mas apesar de a cor ser igual para todas, há sempre forma de lhe dar o merecido destaque. E o seu era realmente lindo. Conjugado com a tenra idade que ainda tinha, com a pele lisa e luminosa que ostentava, com o cabelo especialmente penteado para a ocasião, tudo ajudou a que marcasse a diferença e a que lhe tenham tirado uma foto – ainda que a preto e branco - com aquele sorriso inocente e pura beleza.

“O Zé foi contigo?” - já se conheciam, mas não foi. “Candidatos para dançar não faltaram!”, e riram-se timidamente, trocando olhares cúmplices com alguma malandrice à mistura. “A mim também nunca me faltavam. Sou pequenina mas eles preferem-nos assim… Havia mulheres mais altas e bonitas mas era sempre a mim que eles vinham perguntar se queria dançar!”. Era pequena, de facto, mas tinha o talento. Se era por isso ou não que os ‘rapazes’ a abordavam, não sei. Mas sei que nem sempre a beleza é um factor primordial. Se sabia dançar - o que era um requisito importante nas mulheres da altura -, tinha o charme e a presença, certamente que não passava indiferente. Voltaram as duas a sorrir com aquele tom que denuncia histórias por contar. E que, certamente, ficarão por contar.

“Na nossa altura era tudo muito diferente”, disse a amiga ‘pequenina’ com um misto de revolta e nostalgia. Pois era, o que hoje ninguém se coíbe de fazer aos olhos da sociedade, antigamente era considerado um ultraje. As pessoas de outro tempo dizem sempre estas coisas, mas as suas trocas de olhares não enganam ninguém… Talvez a grande diferença esteja nos limites que hoje não sabem medir, o que torna a liberdade bem mais exacerbada, pensei eu.

Falaram também de clubes que antes existiam e que frequentaram. Foi lá que aprenderam a ser “donas de casa” e mães perfeitas. Afinal, antigamente era esse o trabalho da Mulher. Era esse o seu “curso superior”. Saber cozinhar, saber bordar, saber dobrar um lençol, pôr uma mesa, passar a ferro uma camisa, tirar nódoas mais complicadas da roupa. Provavelmente depois ensinaram tudo isto às empregadas que iam contratando, mas pelo menos não mandavam fazer nada que não soubessem fazer elas melhor do que ninguém. Não há coisa pior do que mandar os outros cumprir tarefas que nem nós próprios sabemos como cumprir. Apesar de tudo, não deixa de ser engraçado imaginar este modo de viver de há uns anos atrás que, se pensarmos bem, nem são assim tantos quantos parecem ser.

Olhei para ela mais uma vez. Está bonita – bem vestida, bem maquilhada, bem penteada, como manda a etiqueta. Toda ela irradia luz; os olhos, o sorriso, os gestos. Pega na minha mão e assim fica, com a mão dela agarrada à minha, durante o tempo todo que ali permaneci. Vai-me observando e vai sorrindo, com orgulho da mulher que me tornei, fruto da mulher que ela gerou e criou. Com saudade da menina que fui e ajudou a educar anos a fio. Pergunta-me pela vida, pelo trabalho, pelas amigas que viu crescer comigo. Pergunta-me pelo casamento e pelos bisnetos. Timidamente baixo o olhar e respondo-lhe “um dia. Ainda não, mas um dia…”, com um sorriso sem jeito nos lábios. Com algum desconsolo encolhe os ombros, mas os olhos continuam a brilhar. Acho que compreende o que quero dizer, mesmo que a resposta pareça ser sempre a mesma.

Cá dentro a notícia vai ruminando. Com inquietude, preocupação, ansiedade, medo, desassossego. Pergunto-me se aquela luz vai continuar a irradiar energia durante mais 5 anos… Podem ser menos, podem ser mais, mas quem sabe? Para o bem ou para o mal, a vida consegue sempre surpreender-nos, embora todos nasçamos com a certeza do nosso fim. É, no final de contas, a única certeza que a vida nos consegue dar. Mas darem-nos um prazo de validade? Nunca estamos preparados para aceitá-lo, seja ele certo ou incerto, mais curto ou mais longo, por egoísmo ou por não querermos simplesmente perder quem amamos e quem nos ama, verdadeiramente.

Realmente as coisas mudam. O tempo transporta com ele o poder da mudança e já nada é como era… antigamente nada era efémero. Mesmo que verdadeiramente o fosse. Era mais feliz assim.

terça-feira, junho 01, 2010

Queres mudar? Começa por ti.

"Uma das verdades mais fundamentais - e no entanto mais difíceis de compreender - é a de que as pessoas vivem todas em diferentes níveis de consciência.

Não se assimila esse Ensinamento nas suas mais profundas implicações apenas lendo ou pensando sobre ele; há que observar a maneira como as pessoas agem, pensam, falam, sentem, reagem, vivem. O que lhes ocupa o pensamento. Como usam o tempo. O que as preocupa. Os objectivos que têm na vida. Aquilo de que falam. E então torna-se evidente que todas vivem em diferentes níveis de consciência e, até, o nível de consciência em que vivem.

A grande maioria da Humanidade vive num nível biológico-social instintivo. Nesse nível, as pessoas são condicionadas pelos valores vigentes e pela mentalidade comum. As suas identidades são uma mera extensão das normas, crenças, costumes e tabus da sociedade em que nasceram. Vivem polarizadas na sobrevivência e, se possível, na acumulação de dinheiro, poder e estatuto. No mínimo, precisam de um emprego seguro e um parceiro para acasalar e reproduzir-se. Odeiam a solidão.

Não têm ideias ou pensamentos originais; falam do que toda a gente fala, têm as opiniões que os meios de comunicação, os líderes de opinião e o status quo querem que tenham. Lêem jornais desportivos e revistas sobre programas de televisão, falam sobre pessoas e acontecimentos triviais do dia-a-dia. Gostariam que o mundo mudasse mas não começam por si próprios. Não questionam o que lhes é dito; se os seus líderes lhes dizem que os afegãos são maus e os astrólogos mentirosos, então os afegãos são maus e os astrólogos mentirosos. Assim, bovinamente, sem sequer investigarem o assunto. Consomem bens e serviços de que não precisam de facto e cujo único valor é o próprio acto de serem adquiridos e o estatuto que lhes está associado - na ilusão de que serão mais no dia em que tiverem mais.

Vivem vidas inteiras repetindo os mesmos padrões mentais e emocionais, submersos na sua própria subjectividade e incapazes de se verem objectivamente. Não fazem ideia do que são "energias", "arquétipos" ou "padrões". Não fazem ideia de que a vida é um processo de crescimento e desenvolvimento pessoal e não uma luta pela sobrevivência.

São os autómatos de que o sistema precisa para assegurar a sua reprodução e a manutenção das suas próprias estruturas. Constituem a "consciência da massa".

Libertarmo-nos da consciência da massa tem um preço muito alto. Porque os valores da sociedade são redutores, mas dão segurança - a mesma segurança que um rebanho dá a uma ovelha.

Evoluir para outro nível de consciência implica questionar e pensar por si mesmo; implica ser incompreendido e ridicularizado por quem não vê mais longe. Implica conviver com as conversas ocas, mecânicas, de quem nos rodeia. Implica ser livre. E a sociedade não gosta de indivíduos livres, porque são uma falha no sistema e um mau exemplo para os autómatos - e esses é que fazem falta, para que tudo isto funcione..."

Nuno Michaels


O início da mudança está sempre ao nosso alcance, porque esse início somos nós mesmos.
Dedos apontados? Apontem os que quiserem. Risos? Rasguem quantos vos apeteça. Tema de conversa? Gastem o meu nome à vontade. O que não destrói, fortalece.

Não me canso de citar esta meia dúzia de palavras que valem por milhares de outras: "para ser grande, sê inteiro". Não acrescentes nem reduzas; apenas sê tu mesmo em tudo aquilo que fazes. Em tudo aquilo que dizes. Em tudo aquilo que vives.

Respostas para todas as perguntas? Para todas as dúvidas? Desculpem, não as tenho. Gostava inúmeras vezes de as ter, mas não sou mais do que ninguém. Sou apenas eu. Mais um Ser Humano que vive, entre outros tantos, em sociedade. Por isso 'não faças o que eu faço', não queiras nem esperes que eu diga o que tens de fazer; é na nossa individualidade que está o nosso valor e a fórmula para crescermos e fazermos crescer...

quinta-feira, maio 13, 2010

Venho, passo, fico...vou!

Dizes-me: tu és mais alguma coisa
Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm ideias sobre o mundo?

Sim: há diferença.
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as coisas:
Só me obriga a ser consciente.

Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.

Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.

Sei que a pedra é a real, e que a planta existe.
Sei isto porque elas existem.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Sei que sou real também.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.
Não sei mais nada.

Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.
Sim, faço ideias sobre o mundo, e a planta nenhumas.
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;
E as plantas são plantas só, e não pensadores.
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,
Como que sou inferior.
Mas não digo isso: digo da pedra, «é uma pedra»,
Digo da planta, «é uma planta»,
Digo de mim «sou eu».
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?

Alberto Caeiro