quinta-feira, setembro 09, 2010

quarta-feira, setembro 08, 2010

Mais para além de "nós"

"Eu fiz isto, eu fiz aquilo, eu fui ali e acolá, eu já estive lá, eu gosto, eu faço, eu costumo isto ou aquilo, etc., etc." Este é o 1º sinal de que estamos perto de uma pessoa egocêntrica; quando da mesma boca sai muitas vezes a palavra "Eu".

Embora o Ego seja o bom senso entre o nosso inconsciente e a nossa noção do dever e das responsabilidades morais e sociais, os egocêntricos olham apenas para o próprio "umbigo". Não fazem nada contra nem a favor dos outros. Simplesmente fazem tudo por e para eles mesmos, por se acharem os mais importantes e pensarem apenas neles próprios.

Pingo de vergonha na cara. Há quem, muitas vezes, não tenha nenhum, o que é pena. Ter - nem que seja uma única gota - de vergonha fica bem e recomenda-se. Para um futuro melhor!

segunda-feira, agosto 30, 2010

O dia a seguir a esta vida

"Na minha próxima vida, quero viver de trás para a frente:

Começar morto, para despachar logo o assunto. Depois, acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa. Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a reforma e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia.
Trabalhar 40 anos - cada vez mais desenvolto e saudável - até ser jovem o suficiente para entrar na faculdade; embebedar-me diariamente e ser bastante promíscuo. E depois estar pronto para o secundário e para a primária, antes de me tornar criança e só brincar, sem responsabilidades.
Aí torno-me um bébé inocente até nascer. Por fim, passo nove meses a flutuar num 'spa' de luxo, com aquecimento central, serviço de quarto à disposição e com um espaço maior por cada dia que passa, até que - 'Voilà!' - desapareço num orgasmo."

by Woody Allen

terça-feira, agosto 24, 2010

"Vivo surda de gritar comigo mesma em silêncio todos os dias dentro da minha cabeça."

MRP

quinta-feira, agosto 05, 2010

Dilema, erro ou intuição

"O amor é uma coisa inexplicável: olhas e percebes.
Às vezes tens de te afastar, porque percebes no olhar: 'Esta pessoa seria especial, esta pessoa é especial.' Porque às vezes podes entrar nesse romance, outras vezes não podes."

In Pública 18/07/2010, por António Carlos Cortez

O segredo está - na maioria dos casos - na precisão da interpretação do olhar dessa tal pessoa especial, vulgo na capacidade para o interpretar. Se nos enganamos perdemos, se acertamos tornamo-nos pessoas felizes. Ou ainda mais.

Naquele momento o meu olhar não demonstrou, mas tu tiveste a sensibilidade para sentir e o optimismo para acreditar que seria o caminho certo. Obrigada por me deixares ser eu e por me fazeres feliz.

Há encontros assim.

segunda-feira, julho 26, 2010

Quebrar o Gelo

Sai de dentro das linhas e faz tudo para que te chamem estúpido. Se isso acontecer é o elogio pelo teu espectáculo.

Saíste das regras, conseguiste, e o julgamento do olho normal, dentro da linha, considera-te estúpido, desalinhado.

Quer isso dizer que te libertaste. Sem medo do ridículo. Libertaste os pensamentos, extravasaste em criação e, sobretudo, não te levaste a sério. Nunca te leves a sério. Isso é coisa de gente esperta e de espertos já está o mundo cheio.

Be stupid e dá algo novo. Afinal, ser estúpido pode ser só ser consciente de que nunca se tem nada a perder. Ser estúpido é correr riscos e, para correr riscos, embora sendo-se estúpido, é preciso ser-se bravo. Isto no caso de se ser estúpido por consciência e confiança, e não por pura falta de noção das circunstâncias.

Sê estúpido como um brilhante palhaço. Sê estúpido como só tu mesmo, ou entra numa de revivalismo à atitude trash com inspiração jackass e quando vires um par de calças que valem no mercado 3 centos de euro, na rua, dentro de um paralelo de gelo, a título de exercício, arma-te de picaretas, maçaricos, martelos e uma grande vontade de pura diversão. Sem troféus. Apenas desafio ao engenho e boa disposição.

É um jogo e, embora o prémio não seja a paz de espírito, levam-se umas calças de ganga e mais tudo o que se pode ganhar com a experiência de um dia ter perdido a vergonha, o limite e o risco, não tendo importância o motivo mas sim a consequência.

Be stupid.

SMART SEES WHAT THERE IS. STUPID SEES WHAT THERE COULD BE.
SMART LISTENS TO THE HEAD. STUPID LISTENS TO THE HEART.
SMART MAY HAVE THE BRAIN. STUPID HAS THE BALLS.


In DIF, edição nº75

segunda-feira, julho 19, 2010

"Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.

Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.

Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.

Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser."

Fernando Pessoa

segunda-feira, julho 12, 2010

No meu tempo não era assim...

“Estás bonita nesta foto” – tinha sido no baile de debutantes, na sua apresentação à sociedade, quando este ainda era no Palácio da Bolsa. O vestido era deslumbrante; branco como manda a tradição, mas apesar de a cor ser igual para todas, há sempre forma de lhe dar o merecido destaque. E o seu era realmente lindo. Conjugado com a tenra idade que ainda tinha, com a pele lisa e luminosa que ostentava, com o cabelo especialmente penteado para a ocasião, tudo ajudou a que marcasse a diferença e a que lhe tenham tirado uma foto – ainda que a preto e branco - com aquele sorriso inocente e pura beleza.

“O Zé foi contigo?” - já se conheciam, mas não foi. “Candidatos para dançar não faltaram!”, e riram-se timidamente, trocando olhares cúmplices com alguma malandrice à mistura. “A mim também nunca me faltavam. Sou pequenina mas eles preferem-nos assim… Havia mulheres mais altas e bonitas mas era sempre a mim que eles vinham perguntar se queria dançar!”. Era pequena, de facto, mas tinha o talento. Se era por isso ou não que os ‘rapazes’ a abordavam, não sei. Mas sei que nem sempre a beleza é um factor primordial. Se sabia dançar - o que era um requisito importante nas mulheres da altura -, tinha o charme e a presença, certamente que não passava indiferente. Voltaram as duas a sorrir com aquele tom que denuncia histórias por contar. E que, certamente, ficarão por contar.

“Na nossa altura era tudo muito diferente”, disse a amiga ‘pequenina’ com um misto de revolta e nostalgia. Pois era, o que hoje ninguém se coíbe de fazer aos olhos da sociedade, antigamente era considerado um ultraje. As pessoas de outro tempo dizem sempre estas coisas, mas as suas trocas de olhares não enganam ninguém… Talvez a grande diferença esteja nos limites que hoje não sabem medir, o que torna a liberdade bem mais exacerbada, pensei eu.

Falaram também de clubes que antes existiam e que frequentaram. Foi lá que aprenderam a ser “donas de casa” e mães perfeitas. Afinal, antigamente era esse o trabalho da Mulher. Era esse o seu “curso superior”. Saber cozinhar, saber bordar, saber dobrar um lençol, pôr uma mesa, passar a ferro uma camisa, tirar nódoas mais complicadas da roupa. Provavelmente depois ensinaram tudo isto às empregadas que iam contratando, mas pelo menos não mandavam fazer nada que não soubessem fazer elas melhor do que ninguém. Não há coisa pior do que mandar os outros cumprir tarefas que nem nós próprios sabemos como cumprir. Apesar de tudo, não deixa de ser engraçado imaginar este modo de viver de há uns anos atrás que, se pensarmos bem, nem são assim tantos quantos parecem ser.

Olhei para ela mais uma vez. Está bonita – bem vestida, bem maquilhada, bem penteada, como manda a etiqueta. Toda ela irradia luz; os olhos, o sorriso, os gestos. Pega na minha mão e assim fica, com a mão dela agarrada à minha, durante o tempo todo que ali permaneci. Vai-me observando e vai sorrindo, com orgulho da mulher que me tornei, fruto da mulher que ela gerou e criou. Com saudade da menina que fui e ajudou a educar anos a fio. Pergunta-me pela vida, pelo trabalho, pelas amigas que viu crescer comigo. Pergunta-me pelo casamento e pelos bisnetos. Timidamente baixo o olhar e respondo-lhe “um dia. Ainda não, mas um dia…”, com um sorriso sem jeito nos lábios. Com algum desconsolo encolhe os ombros, mas os olhos continuam a brilhar. Acho que compreende o que quero dizer, mesmo que a resposta pareça ser sempre a mesma.

Cá dentro a notícia vai ruminando. Com inquietude, preocupação, ansiedade, medo, desassossego. Pergunto-me se aquela luz vai continuar a irradiar energia durante mais 5 anos… Podem ser menos, podem ser mais, mas quem sabe? Para o bem ou para o mal, a vida consegue sempre surpreender-nos, embora todos nasçamos com a certeza do nosso fim. É, no final de contas, a única certeza que a vida nos consegue dar. Mas darem-nos um prazo de validade? Nunca estamos preparados para aceitá-lo, seja ele certo ou incerto, mais curto ou mais longo, por egoísmo ou por não querermos simplesmente perder quem amamos e quem nos ama, verdadeiramente.

Realmente as coisas mudam. O tempo transporta com ele o poder da mudança e já nada é como era… antigamente nada era efémero. Mesmo que verdadeiramente o fosse. Era mais feliz assim.

terça-feira, junho 01, 2010

Queres mudar? Começa por ti.

"Uma das verdades mais fundamentais - e no entanto mais difíceis de compreender - é a de que as pessoas vivem todas em diferentes níveis de consciência.

Não se assimila esse Ensinamento nas suas mais profundas implicações apenas lendo ou pensando sobre ele; há que observar a maneira como as pessoas agem, pensam, falam, sentem, reagem, vivem. O que lhes ocupa o pensamento. Como usam o tempo. O que as preocupa. Os objectivos que têm na vida. Aquilo de que falam. E então torna-se evidente que todas vivem em diferentes níveis de consciência e, até, o nível de consciência em que vivem.

A grande maioria da Humanidade vive num nível biológico-social instintivo. Nesse nível, as pessoas são condicionadas pelos valores vigentes e pela mentalidade comum. As suas identidades são uma mera extensão das normas, crenças, costumes e tabus da sociedade em que nasceram. Vivem polarizadas na sobrevivência e, se possível, na acumulação de dinheiro, poder e estatuto. No mínimo, precisam de um emprego seguro e um parceiro para acasalar e reproduzir-se. Odeiam a solidão.

Não têm ideias ou pensamentos originais; falam do que toda a gente fala, têm as opiniões que os meios de comunicação, os líderes de opinião e o status quo querem que tenham. Lêem jornais desportivos e revistas sobre programas de televisão, falam sobre pessoas e acontecimentos triviais do dia-a-dia. Gostariam que o mundo mudasse mas não começam por si próprios. Não questionam o que lhes é dito; se os seus líderes lhes dizem que os afegãos são maus e os astrólogos mentirosos, então os afegãos são maus e os astrólogos mentirosos. Assim, bovinamente, sem sequer investigarem o assunto. Consomem bens e serviços de que não precisam de facto e cujo único valor é o próprio acto de serem adquiridos e o estatuto que lhes está associado - na ilusão de que serão mais no dia em que tiverem mais.

Vivem vidas inteiras repetindo os mesmos padrões mentais e emocionais, submersos na sua própria subjectividade e incapazes de se verem objectivamente. Não fazem ideia do que são "energias", "arquétipos" ou "padrões". Não fazem ideia de que a vida é um processo de crescimento e desenvolvimento pessoal e não uma luta pela sobrevivência.

São os autómatos de que o sistema precisa para assegurar a sua reprodução e a manutenção das suas próprias estruturas. Constituem a "consciência da massa".

Libertarmo-nos da consciência da massa tem um preço muito alto. Porque os valores da sociedade são redutores, mas dão segurança - a mesma segurança que um rebanho dá a uma ovelha.

Evoluir para outro nível de consciência implica questionar e pensar por si mesmo; implica ser incompreendido e ridicularizado por quem não vê mais longe. Implica conviver com as conversas ocas, mecânicas, de quem nos rodeia. Implica ser livre. E a sociedade não gosta de indivíduos livres, porque são uma falha no sistema e um mau exemplo para os autómatos - e esses é que fazem falta, para que tudo isto funcione..."

Nuno Michaels


O início da mudança está sempre ao nosso alcance, porque esse início somos nós mesmos.
Dedos apontados? Apontem os que quiserem. Risos? Rasguem quantos vos apeteça. Tema de conversa? Gastem o meu nome à vontade. O que não destrói, fortalece.

Não me canso de citar esta meia dúzia de palavras que valem por milhares de outras: "para ser grande, sê inteiro". Não acrescentes nem reduzas; apenas sê tu mesmo em tudo aquilo que fazes. Em tudo aquilo que dizes. Em tudo aquilo que vives.

Respostas para todas as perguntas? Para todas as dúvidas? Desculpem, não as tenho. Gostava inúmeras vezes de as ter, mas não sou mais do que ninguém. Sou apenas eu. Mais um Ser Humano que vive, entre outros tantos, em sociedade. Por isso 'não faças o que eu faço', não queiras nem esperes que eu diga o que tens de fazer; é na nossa individualidade que está o nosso valor e a fórmula para crescermos e fazermos crescer...

quarta-feira, maio 26, 2010

Eu não evoluo, VIAJO.

Vou mudando de personalidade, vou enriquecendo-me na capacidade de criar personalidades novas, novos tipos de fingir que compreendo o mundo, ou, antes, de fingir que se pode compreendê-lo.

Por isso dei essa marcha em mim como comparável, não a uma evolução, mas a uma viagem: não subi de um andar para outro; segui, em planície, de um para outro lugar. Perdi, é certo, algumas simplezas e ingenuidades, que havia nos meus poemas de adolescência; isso, porém, não é evolução, mas envelhecimento.

quinta-feira, maio 13, 2010

Venho, passo, fico...vou!

Dizes-me: tu és mais alguma coisa
Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm ideias sobre o mundo?

Sim: há diferença.
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as coisas:
Só me obriga a ser consciente.

Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.

Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.

Sei que a pedra é a real, e que a planta existe.
Sei isto porque elas existem.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Sei que sou real também.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.
Não sei mais nada.

Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.
Sim, faço ideias sobre o mundo, e a planta nenhumas.
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;
E as plantas são plantas só, e não pensadores.
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,
Como que sou inferior.
Mas não digo isso: digo da pedra, «é uma pedra»,
Digo da planta, «é uma planta»,
Digo de mim «sou eu».
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?

Alberto Caeiro

quinta-feira, abril 29, 2010

Vou chegar onde só chega quem não tem medo de naufragar

Não vou procurar quem espero
Se o que eu quero é navegar
Pelo tamanho das ondas…
Conto não voltar,
Parto rumo à primavera
Que em meu fundo se escondeu…
Esqueço tudo do que eu sou capaz
Hoje o mar sou eu,
Esperam-me ondas que persistem
Nunca param de bater,
Esperam-me homens que desistem
Antes de morrer,
Por querer mais do que a vida
Sou a sombra do que eu sou…
E ao fim não toquei em nada
Do que em mim tocou…

Eu vi
Mas não agarrei

Parto rumo à maravilha,
Rumo à dor que houver para vir,
Se eu encontrar uma ilha
Paro para sentir
E dar sentido à viagem
Para sentir que eu sou capaz…
Se o meu peito diz coragem
Volto a partir em paz

Eu vi
Mas não agarrei

sexta-feira, abril 23, 2010

Ser 'gaja'

Ser ‘gaja’ às vezes irrita-me. Por muito que tente fugir das pressões sociais e dos dilemas femininos comuns - diria até ‘fúteis’ – está-nos nos genes e não conseguimos escapar-lhes. Existem sempre aqueles minutos, às vezes semanais, outras vezes mais frequentes, dependendo da altura do ano ou da nossa corrente de hormonas, em que tudo de problemático nos enche a cabeça.

Basta folhear umas revistas ‘cor-de-rosa’, ver aqueles programas na televisão com apresentadoras e/ou assistentes escolhidas a dedo - altas, magras, sempre bem vestidas, bem maquilhadas, bem penteadas, vistosas, atraentes - ou, pior ainda, as revistas masculinas com produções XPTO carregadas de photoshop. Aquelas a quem chamam ‘VIPS’ conseguem, inclusivamente, acabar de ser mães e - quando geralmente o normal é sair da maternidade com mais uns 15 quilos em cima, cabelo desgrenhado, cara deslavada, um ar exausto (mas feliz, é certo) a precisar de manutenção -, vemo-las a ser fotografadas como se acabassem de ter saído de um SPA; com um outfit de acordo com as últimas tendências, um cabelo brilhante e bem tratado, as unhas arranjadas e uma maquilhagem luminosa mas natural, não vá parecer exagero ou até um pouco 'pimbalhesco'. Inacreditável.

Há alturas em que simplesmente não consigo estar bem com o meu físico. Na verdade, embora faça sempre por parecer uma pessoa com uma auto-estima elevada, e talvez daí o facto de a maioria das pessoas me achar, à primeira vista, convencida ou com um ar altivo, nunca me considerei uma ‘gaja boa’. Bendita roupa que disfarça tudo aquilo que detestamos em nós! Hoje em dia ninguém se pode queixar: desde soutiens ‘push up’, mais ou menos almofadados que fazem as mamas perfeitas, até às calças que arrebitam o rabo, ou que até o fazem parecer bem-feitinho, tudo passa por uma questão de sabedoria quando toca a escolher padrões, tecidos, ou até mesmo os cortes das peças de roupa, o tamanho e espessura do tacão do sapato e, no final, a conjugação de tudo! (nota-se logo que trabalho com moda, há uns tempos atrás certamente não escreveria nada disto).

O caldo entorna mesmo é quando chega a altura do calor e nos apercebemos que o verão está prestes a arrebentar com todo o seu esplendor. Calções, mini-saias, decotes, tops justos e curtos, biquínis, praia, muita gente à nossa volta a observar… Nunca ultrapassei o terror dos primeiros dias de praia! Primeiro por ser branca como a cal e achar isso horroroso e, segundo, por odiar 98% do meu corpo, se considerarmos que só gosto do meu nariz e do meu peito. Há uns anos atrás ainda tinha um certo amor pela minha barriga, mas agora nem isso. Só de imaginar toda aquela luz que o sol irradia sobre aqueles defeitos mais tenebrosos, mais vale nem tecer comentários. É em alturas como esta, por exemplo, que adorava ser milionária; clínicas e tratamentos miraculosos fazia-os a todos. Ou quase. Fútil, eu sei, mas fazer o quê? Sou 'gaja' e estas mesquinhices irritam-me.

Não como muito. Também não pratico desporto, é um facto, mas infelizmente o tempo cada vez é mais escasso e os ginásios são exageradamente caros. Como é que conseguem vir com aquele blá blá blá de cuidar da saúde e da manutenção da boa forma física se depois não fomentam essa necessidade e impossibilitam o seu acesso a pessoas com a carteira menos recheada? Não entendo. Nunca entendi. Isso e aquelas dondocas que só lá andam para desfilarem os micro modelitos, para se atirarem descaradamente aos professores e para afiarem a língua com comentários acerca das outras que lá andam…mas para exercitar o corpo, como manda o local em questão. Mas isto seria pano para mangas que agora não me apetece fabricar, porque nem essa importância merece.

Ao bocado decidi pesar-me. Nunca o faço. Talvez só duas vezes por ano, e porque faz parte das consultas médicas de rotina. Desta vez sinto-me tão ‘inchada’ que não resisti a ver se é panca ou se realmente engordei uns 10 quilos, porque é isso que muitas vezes me parece. Porém, o número que piscou (nas 3 vezes que subi à balança para confirmar) continua a não me convencer. Ronda o mesmo de sempre. Mais uns gramas, mas é noite e acabei hà pouco tempo de jantar. Então - pergunto-me eu - porquê a roupa estar mais apertada e porquê eu sentir-me tudo menos confortável com o meu corpo? Isto dá mesmo cabo de mim, irrita-me ser ’gaja’, aquela ‘gaja’ padrão da sociedade.

Para além disto - desta preocupação com o ego, com o bem-estar físico, com a aproximação do tempo de praia - às vezes também acontece comparar-me com qualquer mulher: não só com as que aparecem nas revistas, com as apresentadoras de TV, com as actrizes de cinema, mas também com as que me rodeiam num café, num bar, num restaurante. Pior do que isso, com as 'ex'. Com as aventuras. Eram melhor? Pior? Mais gordas? Mais magras? Mais ‘boas’? Tinham pneus na barriga? Celulite no rabo? Estrias nas coxas? Eram mais sensuais, sexy, atraentes, bombásticas? Bem, quando chegamos a este ponto das duas uma: ou fazemos um retiro espiritual no Tibete ou metemo-nos num avião rumo ao paraíso, para arejar as ideias, acalmar os neurónios e concentrarmo-nos no mar quente azul-turquesa, na espreguiçadeira e na caipiroska pousada numa mesinha mesmo ao nosso lado, de preferência com uma daquelas palhinhas bem grandes para nem sequer termos de esticar o braço para pegar no copo.

Qualquer uma destas opções parece-me fantástica tendo em conta que, ultimamente, ando cansada e sem tempo para nada. Sem tempo especialmente para mim. O trabalho cada vez mais me consome, o que me pagam é desproporcional ao desgaste físico acabando, por sua vez, por contribuir para um desgaste psicológico. Em casa há sempre aquelas tarefas pendentes e depois, claro está, o corpo a acusar o cansaço e a idade também a não perdoar. Desde que os dias se tornaram mais longos que ainda não consegui ter a oportunidade de sair do escritório à hora suposta e poder usufruir de um belo pôr de sol, numa esplanada à beira-mar. Triste, mas é a dura realidade de quem cresceu sem querer nem pedir a ninguém para crescer.

Esta falta de tempo fomenta também em mim as saudades de escrever. Tudo o que tenho conseguido é simplesmente mental. Quantas vezes não surgem na minha cabeça, de um momento para o outro, aquelas frases, temas ou constatações em que dava tudo para poder parar o tempo, pegar num papel e numa caneta – ou num computador – e soltar todas as palavras que emergem abruptamente? Mas nem sequer isto tenho conseguido, quanto mais não seja porque falha-me a energia para o conseguir fazer como desejo. Nestes casos, em que sei que não vou conseguir transmitir o que realmente quero, prefiro continuar quieta e guardar a ânsia e a necessidade de o fazer para outra altura mais favorável. Como por exemplo esta. Ou não.

Ser 'gaja' ás vezes irrita-me mesmo!

segunda-feira, abril 12, 2010

Agora vivo num mundo à parte do teu

Pensas que eu vou jogar este jogo contigo
Tudo o que eu tenho é meu, só meu, queres o meu “guito”
Trata de pegar nas tuas cenas e “baza”
Eu cá não fico contigo na mesma casa

Falas disso, esquece isso
Eu não percebo porque é que ainda estás cá

Que queres de mim
Que queres que eu faça
Dá meia volta e “baza”
Não me leves a mal
Gajas como tu não quero, não tolero
Saio do sério
Noite deslumbrante
Corpo escaldante
Lembro-me de tudo o que passamos
Foi bom naquele instante
Agora considero-te uma gaja irritante

...

Pensas que vais ficar por cá muito mais tempo
Demasiado tarde por isso aproveita este momento
Agora vivo num mundo à parte do teu
Mas continuo sem saber o que nos aconteceu

...

Expensive Soul - Falas Disso

sexta-feira, abril 09, 2010

Eu não minto. Digo o que sinto.

Quando alguma coisa corre mal - ou menos bem - seja em relações ou no trabalho, a maior parte das pessoas tende a crer que falhou em alguma coisa, o que nem sempre é certo.

Se acreditaste, se te empenhaste, se te dedicaste, se acarinhaste, se sentiste, se te sacrificaste, se deste tudo aquilo que podias dar e, mesmo assim, a facada veio pela calada, então a falha não foi certamente tua.

Não sei o que é preferível, se perder porque falhamos ou se perder porque a outra pessoa quis falhar. Afinal de contas, a dor é a mesma.

...as amizades também morrem.

quinta-feira, março 18, 2010

quarta-feira, março 10, 2010

A teoria da conspiração

Confirma-se. Hoje lembrei-me de um pormenor talvez 'engraçado' para ser dissertado: o que é que aconteceu à tão falada, divulgada e controversa gripe A?

Pois bem, tal como eu previ, o seu fim foi igual ao seu início: rápido e repentino. Explicações? Aparentemente nenhuma. Foi como a vaga do vírus das 'vacas loucas' ou de uns outros tantos que sem mais nem porquê assolam o mundo, provocam o pânico global, a confusão geral, o medo social e a fobia pela prevenção.

Golpes baixos de quem governa o mundo para enriquecer à custa do povinho? Esquemas dos cabecilhas da área da saúde para gerar receitas? Experiências de quem tem o poder para fazer de nós cobaias ignorantes? Estará o mundo nas mãos de pessoas maléficas sem claramente se aperceber?

Isto quase me parece um filme ao estilo de "Truman Show", que relata a história de um homem cuja vida serve de base, 24 horas por dia, a um espectáculo colussal de televisão. A cidade onde vive é um estúdio montado propositadamente para o efeito, os moradores, trabalhadores e até a própria mulher são actores e, gradualmente e inevitavelmente, ele acaba por enlouquecer quando tudo começa a ganhar o seu verdadeiro sentido.

Será isto que querem de nós, seres humanos? Serão os por 'nós' considerados loucos, os mentalmente saudáveis que, por verem uma verdade oculta, têm que ser aprisionados para não falarem demais?

Um exagero pensar nesta possibilidade, talvez. O facto incontornável é que este vírus mortal do 'H1n1' se evaporou à mesma velocidade com que se propagou. E, parafraseando as palavras que uma vez ouvi, colocando nelas uma pequena alteração: podem fazer de mim vaca, mas louca é que não!

quarta-feira, março 03, 2010

'O futuro não depende totalmente da nossa vontade, nem é totalmente alheio a ela; não o esqueças, para que não tomes como uma fatalidade o que ainda não aconteceu, nem como impossível de concretizar aquilo que mais desejas.'

Epicuro, 341-270 a.C., filósofo grego, Carta a Meneceu

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Estou para os 30 como Portugal está para a salada de fruta

Dizem que a chegada dos 30 pouco ou nada nos traz de diferente, mas a minha perspectiva não condiz com esta aparente indiferença. Não estou com um 'pé para a cova', nem tão pouco me sinto velha (pelo menos de espírito), só que as evidências não me deixam ficar impassível aos anos que passam à velocidade da luz.

Há 10 anos atrás estava longe de me preocupar com 'gordurinhas' a mais, celulite instalada, estrias, má circulação do sangue, colestrol alto, falta de vitaminas, descamação do couro cabeludo e outras coisas afins que o corpo vai acusando pelo desgaste e maus hábitos do dia-a-dia. Não tinha que me preocupar tanto com a aparência - exactamente por não ter que ir disfarçando esta passagem do tempo - e não tinha que fazer contas aos gastos para a manutenção de uma pele, cabelo e/ou unhas bonitas. Sentia-me bem mais livre destas 'futilidades' necessárias para uma auto-estima minimamente equilibrada (e não me venham com filosofias de que ter auto-confiança não é importante para uma psique saudável).

Aos 20 anos de idade também me sentia longe de ter o peso das responsabilidades que tenho hoje; bastava-me estudar para ter boas notas e cumprir com o prometido ao meu pai, pois em troca tinha garantida a minha mesada e a minha liberdade social, vulgo sair e entrar em casa às horas que bem me apetecia. Agora se dormir pouco ou nada não posso ouvir o despertador, desligá-lo e virar-me para o lado a pensar 'que se lixe o trabalho, alguém há de o fazer por mim'. Tenho que pensar em contas porque - embora ainda não tenha casa própria e os custos a ela inerentes - tenho carro, um crédito pessoal em curso, uma cadela para cuidar e outras 'pequenas' coisas que os pais já não pagam, porque já muito eles fizeram. Fora ainda os extras que qualquer ser humano necessita para desanuviar desta vida rotineira de 'adulto', como os jantares de amigos, as ansiadas férias e o cinema a um domingo à noite. Se não for eu, ninguém se vai preocupar com isso por mim.

A juntar a este natural processo de crescimento, o estado lastimável da economia mundial que, como não podia deixar de ser, é fruto dos comportamentos irresponsáveis, gananciosos e materialistas do ser humano que 'domina' o mundo apelidado de 'moderno'. A crise está instalada de tal maneira que não há esforço que resista ao cinto que já nem aperta...sufoca, quase que mata! Pedindo desde já desculpa pelo termo menos próprio, neste país de 'merda' deviam preocupar-se mais, por exemplo, com quem o governa do que com palermices, como o caso das escutas do Pinto da Costa. Podem achar-me suspeita por ser portista mas, que me desculpem novamente os que isso consideram relevante, eu quero lá saber de 'sumaríssimos' pedidos por favor, da criação de falsas polémicas, de encomendas de 'saladas de fruta' por parte de equipas de arbitragem, de café com leite ou mais escuro...estão a brincar comigo?? Qual é a empresa, negócio ou afim neste país de 3º mundo que não vive de corrupção, fachadas e factos camuflados? Creio que existem casos bem mais graves com que se perder tempo para endireitar 'paus que nascem tortos' - ou que se tornam tortos - por viverem num país feito à base de leis e demais coisas tortas!

Em jeito de curiosidade, lembrei-me agora que, na semana passada, a minha mãe trouxe um tupperware de biscoitos e eu, ao olhar para eles, não pensei duas vezes antes de soltar a frase 'olha...os biscoitos da bibó!". Quando o disse senti-me um pouco constragida, mas foi mais natural do que a 'minha própria sede'. Calei-me e, por momentos, a minha memória viajou para os meus 10/12 anos quando, a seguir à escola, ia a casa dela. Existiam sempre 2 rituais: o leite acompanhado por aqueles biscoitos característicos, em forma de S, e os chocolates 'escondidos' atrás de uma pequena porta de um armário da sala, que a minha bisavó comprava propositadamente para cada uma das bisnetas. É incrível o que determinados pormenores nos fazem recordar. Acho que, durante a minha curta viagem ao passado, até consegui sentir o cheiro da casa dela e até mesmo, o dela própria. Foi uma questão de segundos, mas consegui imaginar cada detalhe como se ainda ontem tivesse lá ido, a seguir às aulas. Já passaram mais de 10 anos e ela já faleceu há 5.

Nessa altura eu ainda era uma criança bem inocente. Ainda o sou, é certo, mas (in) felizmente já não em tanta coisa. Na adolescência conseguia imaginar-me na perfeição com a idade de hoje; casada, com filhos, uma casa, uma vida organizada. Era tudo fácil. Hoje, quase nos 30, tenho muito, mas não tudo. E desgasta-me pensar que estudei 20 anos para depois a compensação não ser a esperada ou, até mesmo, a prometida. Desgasta-me trabalhar 8 ou mais horas por dia durante 5 dias por semana e ganhar uma miséria. Desgasta-me o empenho sem recompensa. A dedicação com base em falsas expectativas. Desgasta-me a reprimenda de chegar 15 minutos atrasada de manhã e ter que responder 'o meu horário de saída também é às 18h30' ou pensar nas tantas horas extra que ninguém me paga ou enaltece. Desgastam-me os sonhos mutilados, o futuro incerto, a hipocrisia dos abastados e a luta com resultados, para já, inglórios para as minhas ambições.

Perante tudo isto, só me apetece mesmo continuar a dizer 'quero lá saber da fruta e do café com leite'! Venha mas é a garantia da água própria para beber e do pão fresco para comer...

Porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura

Como nuvens pelo céu
Passam os sonhos por mim.
Nenhum dos sonhos é meu
Embora eu os sonhe assim.
São coisas no alto que são
Enquanto a vista as conhece,
Depois são sombras que vão
Pelo campo que arrefece.

Símbolos? Sonhos? Quem torna
Meu coração ao que foi?
Que dor de mim me transtorna?
Que coisa inútil me dói?

Fernando Pessoa